Estado de São Paulo, https://digital.estadao.com.br/o-estado-de-s-paulo, 08/10/2025, pg. B12

O drama do emprego para recém-formados

Maurício Benvenutti |OESP*

Há duas semanas, estive no Vale do Silício. Na maioria das empresas que visitei, o assunto foi o mesmo: o impacto que a IA está causando nos profissionais em começo de carreira.

Entre 2019 e 2024, o fundo de venture capital SignalFire registrou queda de 50% na contratação de profissionais com menos de um ano de experiência em empresas de tecnologia. Já as vagas de entrada nos Estados Unidos diminuíram 35% desde janeiro de 2023, segundo a consultoria Revelio Labs. E para jovens de 22 a 25 anos, os empregos de nível inicial despencaram 13% desde a popularização da IA generativa, de acordo com Stanford.

Recentemente, o CEO da Fiverr – marketplace global de freelancers com valor de mercado próximo a US$ 1 bilhão – enviou um e-mail aos seus colaboradores que viralizou pela franqueza. O texto começava assim: “Aqui está a verdade desagradável: a IA atingirá os seus empregos. Na verdade, atingirá o meu também. Este é um wake-up call, um alerta para você acordar de verdade… O que antes era tarefa fácil não existirá mais; o que era considerado tarefa difícil será o novo fácil; e o que era considerado tarefa impossível será o novo difícil”.

O “nível de entrada” atual exige competências mais avançadas. E isso pressiona os recém-formados a aprenderem

O ‘nível de entrada’ atual exige que os recém-formados dominem o que se aprendia no emprego

por conta própria o que antes se aprendia no primeiro emprego. Mas há um paralelo histórico e positivo: quando internet e e-mail se tornaram habilidades corporativas essenciais, os jovens estavam bem posicionados para preencher os requisitos das vagas da época porque já usavam esses recursos nas escolas e universidades. O mesmo vale agora para a IA. A chave será como cada um aproveitará o potencial dessa tecnologia para se destacar.

Não é à toa que várias universidades já inseriram a IA na experiência cotidiana dos alunos. A Duke University, por exemplo, oferece acesso ilimitado ao ChatGPT para estudantes e professores.

A California State University disponibilizou o ChatGPT Edu – versão personalizada do ChatGPT para instituições educacionais – a mais de 460 mil estudantes e 63 mil docentes. E a China foi além: desde 1.º de setembro deste ano, o ensino de IA é obrigatório nas escolas de ensino fundamental e médio do país, com carga mínima de oito horas anuais sobre o tema.

A tecnologia está redesenhando as trajetórias profissionais. Para os recém-formados, dominar a IA já não é apenas uma opção. É necessidade. Afinal, um futuro promissor dificilmente aguarda quem ignora a realidade. •

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