O Brasil é negro, mas o mercado insiste em não ver

Joildo Santos – Colunista do UOL*

Existe uma contradição que atravessa a história do Brasil: somos um país majoritariamente negro, mas a estrutura que organiza nossas relações de trabalho, consumo e representação ainda opera como se fôssemos uma minoria. A recém-lançada pesquisa “O Consumo Invisível da Maioria”, realizada pelo Instituto DataRaça, Market Analysis e Instituto Akatu, foi apresentada durante o Fórum Brasil Diverso. O estudo revela com clareza o que as ruas já sabem há tempos: a população negra continua invisível no mercado que ela própria sustenta.

O dado é contundente. . Mais de um terço das pessoas negras afirma ter sofrido discriminação ao tentar consumir produtos e serviços no último ano. E essa discriminação não acontece apenas em grandes debates ideológicos. Ela está nas portas giratórias de bancos, nos olhares desconfiados no shopping, nos vendedores que seguem clientes negros pelos corredores. É o racismo cotidiano, aquele que adoece, desgasta e reduz a experiência de cidadania.

A pesquisa mostra que 71,9% dos episódios são sutis. Isso explica por que tanta gente ainda tenta negar o problema: o racismo que mais dói no consumo é justamente o que se esconde nas entrelinhas. Não se trata apenas de quem é mal atendido, mas de quem nunca encontra seu tom de pele na prateleira, seu cabelo na embalagem, sua família na propaganda.

E se o problema é grave, a resposta da comunidade negra também é clara. Um movimento silencioso e poderoso vem ganhando força: 37% dos consumidores negros já premiaram marcas que respeitam sua identidade, enquanto 24% deixaram de consumir empresas que reproduzem práticas racistas. Isso mostra que a população negra não é apenas alvo, é agente econômico ativo, crítico e consciente.

 

Outro ponto chama a atenção: a confiança nas empresas é maior do que no governo quando o tema é inclusão racial. Isso impõe uma responsabilidade gigantesca ao setor privado. As marcas não podem mais se esconder atrás de campanhas pontuais ou slogans motivacionais. Precisam alinhar discurso e prática. Significa rever produtos, serviços, atendimento, políticas internas e toda experiência do consumidor.

Se o Brasil quer de fato se reconhecer como um país diverso, esse reconhecimento precisa atravessar o caixa do supermercado, a vitrine do shopping e a estratégia das empresas. O futuro econômico do país passa pelo consumidor negro. Não por uma questão moral, mas por uma questão de realidade.

Somos a maioria.

E a maioria não pode seguir invisível.

*Portal Uol, https://noticias.uol.com.br/colunas/joildo-santos/2025/11/18/o-brasil-e-negro-mas-o-mercado-insiste-em-nao-ver.htm, 18/11/2025

AN
× clique aqui e fale conosco pelo whatsapp