Licenças por transtorno mental têm alta de 79% em dois anos

Levantamento com base no INSS aponta que afastamentos subiram de 219,8 mil em 2023 para 393,6 mil em 2025; 86% dos casos são de transtornos depressivos e ansiosos

FABIANA CAMBRICOLI | OESP*

Com uma explosão de casos de ansiedade e depressão, o número de trabalhadores afastados em decorrência de transtornos mentais cresceu ao menos 79% em apenas dois anos no País, revela um levantamento feito pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), divulgado ontem, com base em dados do INSS.

O número de licenças concedidas passou de 219,8 mil em 2023 para 393,6 mil em 2025 (com dados até novembro), um aumento de 79,1% mesmo sem os dados fechados de dezembro. Os transtornos depressivos e ansiosos foram responsáveis por 86% do total de afastamentos no ano passado.

As licenças por transtornos ansiosos subiram 92% no período, passando de 81.874 para 157.235. Já o total de afastamentos por episódios depressivos e por transtorno depressivo recorrente subiu 71%, saltando de 106.796 em 2023 para 182.937 nos primeiros 11 meses de 2025. O dado equivale a uma média de um trabalhador afastado por depressão a cada três minutos.

Já os afastamentos motivados por burnout, um quadro de esgotamento extremo diretamente ligado a questões laborais, triplicaram no período, passando de 1.760 em 2023 para 6.985 em 2025.

O presidente da ANAMT, Francisco Cortes Fernandes, lembra que os dados referemse somente aos casos de licenças superiores a 15 dias, quando os trabalhadores recebem o benefício pelo INSS, e de trabalhadores formais, vinculados à Previdência.

Dessa forma, diz ele, o número de trabalhadores brasileiros afetados por questões de saúde mental deve ser ainda maior. “O levantamento mostra os quadros mais graves e de trabalhadores formais, que representam de 45 milhões a 50 milhões de brasileiros. Mas como estão os trabalhadores informais? Deve ser uma coisa impressionante”, diz ele.

IMPACTO ECONÔMICO. O cenário também tem impacto econômico. O custo dos benefícios concedidos pelo INSS relacionados a transtornos mentais no ano passado chegou a R$ 954 milhões.

Segundo a ANAMT, “os transtornos de ansiedade são caracterizados por medo excessivo, preocupação persistente e sensação constante de ameaça, mesmo na ausência de risco real”. No ambiente de trabalho, diz a entidade, costumam estar associados a sobrecarga, pressão por resultados, jornadas extensas e baixa previsibilidade das rotinas.

“O levantamento mostra os quadros mais graves e de trabalhadores formais, que representam de 45 milhões a 50 milhões. Mas como estão os informais?” Francisco Cortes Fernandes – Presidente da ANAMT

Já a depressão costuma ter como sinais “um humor persistentemente deprimido, perda de interesse ou prazer nas atividades, fadiga intensa e prejuízo funcional significativo”. Na vida profissional, o quadro costuma ter impacto sobre a capacidade de concentração, a tomada de decisões e a manutenção do ritmo de trabalho.

Para o médico, a crescente pressão por metas nas empresas, somada a fatores sociais e pessoais, ajudam a explicar a alta expressiva de afastamentos por transtornos mentais. “Os transtornos mentais são multifatoriais: existem as questões do trabalho e as de fora do trabalho, e muitas vezes elas coexistem, mas, quando você faz uma remuneração vinculada a metas, por exemplo, você vai produzir trabalhadores doentes”, diz Fernandes.

Ele cita ainda como um dos aspectos ligados ao aumento da ansiedade o medo da perda do emprego diante do avanço de ferramentas tecnológicas, como as de inteligência artificial. “Imagina como fica a cabeça do trabalhador ao pensar que em breve pode ser substituído por uma máquina.”

Aline Wolff, psicóloga especialista em alto desempenho e pesquisadora de performance sustentável, diz que as mudanças no ambiente de trabalho do período pós-pandemia podem estar contribuindo para o aumento do adoecimento mental. “Cada vez mais, temos as fronteiras entre trabalho e vida pessoal misturadas, a tecnologia invadindo a vida das pessoas”, ressalta ela. A especialista também destaca que os cenários social, econômico e político contribuem para um contexto de incertezas e sofrimento psíquico.

GRUPOS MAIS AFETADOS. A análise dos dados por gênero revela que as mulheres são a maioria nos afastamentos concedidos. Do total de licenças relacionadas a transtornos mentais, 68% foram para trabalhadoras. Para Aline, o cenário reflete as disparidades ainda existentes entre os sexos.

“As mulheres são mais afetadas porque elas têm mais sobrecarga, acumulam os cuidados com os filhos e a casa com seus afazeres profissionais. Além disso, a gente pode entender as mulheres como um grupo minorizado. E esses grupos sentem que têm de fazer mais para serem reconhecidos e ter espaço”, afirma.

No recorte por idade, o maior número de licenças relacionadas a questões de saúde mental está na faixa etária dos 40 aos 49 anos, com 125 mil afastamentos.

O presidente da ANAMT afirma que, diante do cenário preocupante, é importante que as empresas estruturem áreas de Medicina do Trabalho que estejam realmente atentas a fatores que aumentam o risco de adoecimento psíquico, como metas incompatíveis, assédio e sobrecarga.

Ele cita ainda a importância de as empresas seguirem as atualizações da norma NR-1, que estabelece as diretrizes gerais de segurança e saúde ocupacionais. No ano passado, a norma passou a exigir que as empresas façam a gestão dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho. “Não é só oferecer uma sala com massagem e outra sala com jogos para falar que está preocupado com o bem-estar. É preciso buscar uma série de correções de rumo”, destaca Fernandes.

Fernandes encoraja os trabalhadores a verem a área de Medicina do Trabalho não só como a que faz exames periódicos, mas como um espaço de escuta. “O médico do trabalho pode ser uma ponte entre o trabalhador e o supervisor na tentativa de abrir o diálogo e melhorar a situação”, diz.

Para Aline, é importante que as empresas ofereçam esses espaços de escuta com profissionais especializados. “O trabalhador não vai se abrir se o espaço não for seguro. E ter um espaço seguro significa que o trabalhador não será julgado ou classificado como alguém que não quer trabalhar ou que é fraco de alguma forma. É preciso trabalhar as lideranças também para que elas sejam capazes de promover um ambiente psicologicamente seguro.”

*Estado de São Paulo, https://digital.estadao.com.br/o-estado-de-s-paulo, 28/01/2026 pg. A13

AN
× clique aqui e fale conosco pelo whatsapp