IA muda funções de início de carreira e pressiona geração Z

Pesquisa expõe impacto no mercado de trabalho dos nativos digitais

JAYANNE RODRIGUES | OESP*

Funções delegadas a profissionais em início de carreira têm sofrido impacto direto e crescente em razão do avanço em inteligência artificial. São tarefas geralmente com alto volume de dados e regras claras, justamente as mais automatizáveis. O efeito é sentido de diferentes formas pela geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) brasileira, informa Jayanne Rodrigues.

Alguns vivenciam a chamada sobrecarga cognitiva. Outros temem cada vez mais serem substituídos. O impacto sobre esta geração de nativos digitais foi detalhado em pesquisa inédita do Instituto Ipsos, em parceria com o Estadão. O levantamento aponta que 56% da geração Z se preocupa muito com o risco de ter ocupações assumidas pela tecnologia – só 8% não se preocupam. O estudo vai além do impacto da IA no grupo, que atualmente tem entre 14 e 29 anos. Traça um perfil da sua disposição para liderar, visão sobre ensino superior, relação com o modelo CLT e prioridades profissionais.

As funções delegadas a jovens profissionais em início de carreira estão mudando. A inteligência artificial (IA) consegue, por exemplo, gerar códigos com mais agilidade do que desenvolvedores de software. Tarefas típicas do período de aprendizagem em uma empresa estão justamente entre as mais passíveis de automatização. Para a geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) brasileira, o efeito já é sentido. De um lado, alguns vivenciam a chamada sobrecarga cognitiva. Do outro, cresce o medo de ser substituído pela tecnologia.

O dado faz parte de uma pesquisa inédita do Instituto Ipsos, em parceria com o Estadão, que investigou como a geração Z brasileira tem construído sua trajetória no mercado de trabalho. O estudo aborda a disposição desses jovens para ocupar cargos de liderança, o papel do ensino superior na conquista de um emprego, o impacto da inteligência artificial e o medo de substituição, a relação com o modelo CLT e as prioridades profissionais dessa geração.

De acordo com o levantamento, 56% da geração Z se preocupa muito com o risco de ter ocupações e profissões assumidas pela tecnologia. Somente 8% não se preocupam com a possível ameaça da IA no trabalho. As perguntas foram direcionadas a quem tem de 16 a 29 anos, faixa de pessoas aptas a ocupar vagas no mercado de trabalho – embora o grupo etário comece aos 14 anos.

O grande dilema do emprego para jovens recém-formados são as tarefas que executam. Geralmente são de baixa ambiguidade, com alto volume de dados e com regras claras. “Sempre foi o trabalho mais codificável. É exatamente o que a inteligência artificial faz muito bem”, afirma Anderson Soares, coordenador científico do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás.

“A IA não substitui o estagiário. A tecnologia acaba substituindo o pacote de tarefas que as empresas usavam como moeda de treinamento”

“O time que poderia crescer com dois analistas, agora é formado por um analista e uma licença de ferramenta de IA” – Anderson Soares Coordenador científico do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás

No entanto, há um ponto que deve ser levado em consideração. “A IA não substitui o estagiário. A tecnologia acaba substituindo o pacote de tarefas que as empresas usavam como moeda de treinamento”, diz Soares. Basta lembrar dos relatórios, das apresentações e do atendimento de primeiro nível, atividades que foram assumidas pela automação.

RECÉM-FORMADOS. Nos EUA, o número de vagas para posições juniores em companhias de tecnologia e finanças está mais escasso. E uma das razões é que a IA teria herdado parte da carga de trabalho, segundo o Business Insider. Em 2024, 21% dos empregadores disseram esperar uma redução nas contratações. Nos anos anteriores, apenas 6% e 3,5% dos empregadores, respectivamente, disseram esperar uma queda, de acordo com uma pesquisa da Associação Nacional de Faculdades e Empregadores (National Association of Colleges and Employers).

No Brasil, o cenário é um pouco diferente. Das 101 empresas atendidas (desde startups a grandes corporações) no centro de excelência em IA da Universidade Federal de Goiás, não há registros de demissão de juniores por causa da IA. Mas houve um recuo na oferta de vagas dos programas de estágio. “Temos uma percepção muito clara de que houve redução de vagas. O time que poderia crescer com dois analistas, agora é formado por um analista e uma licença de ferramenta de IA. É algo silencioso, mas é real”, afirma Soares.

Em meio aos casos de restrições, há empresas que afirmam precisar de mais pessoas para trabalhar com a ferramenta, principalmente em cargos de entrada. A 99 abriu vagas no Brasil para estagiários com aplicação em IA. As posições são focadas em análise de dados, automação, experiência do cliente e processos internos da companhia. Das 130 vagas em aberto, apenas quatro são para estagiários.

“O objetivo é formar profissionais que aprendam a usar essas ferramentas de maneira prática, conectadas aos desafios reais do negócio, e continuar capacitando-os na utilização destas ferramentas”, afirma Jeniffer Arliani, diretora de Recursos Humanos da 99 no Brasil.

A companhia afirma que os funcionários recebem capacitação sobre o tema e todos os times têm contato com algoritmos, automação e sistemas inteligentes no dia a dia.

ONDAS DA IA. Embora o Brasil ainda não tenha pesquisas que confirmem – ou não – a redução de vagas disponíveis para recém-formados, estudos apresentam indícios de que o impacto é maior na vida de jovens profissionais. A maioria da geração Z está preocupada com seus empregos por causa da ferramenta, reforça a pesquisa do Ipsos.

Um estudo do FGV/IBRE divulgado neste ano revela que a IA generativa tem impacto sobre 30 milhões de trabalhadores no Brasil, com efeitos concentrados em jovens de 18 a 29 anos. Quase 30 milhões de pessoas, o equivalente a 29,6% da população ocupada, estavam em postos de trabalho com algum grau de exposição à tecnologia no 3.º trimestre de 2025. Desse total, cerca de 5,2 milhões estavam no nível mais elevado de exposição.

Mesmo com a pressão predominante entre os mais jovens, estar exposto à IA não significa necessariamente substituição, afirma Janaína Feijó, economista e coautora do estudo. “Ainda é difícil universalizar a IA em economias mais emergentes.”

SOBRECARGA COGNITIVA. Beatriz Dolapci, de 23 anos, trabalha em uma empresa que adota uma política de “IA First”, que incentiva o uso da tecnologia no dia a dia. “Dentro da nossa carga horária, temos momentos de treinamento sobre como usar a IA da forma mais segura e correta”, conta.

Desde que começou a mudança, a jovem diz que não teme ter seu trabalho substituído pela ferramenta. Mas pensa no risco de não acompanhar as atualizações. “Se a gente não se preocupar em aprender a utilizar, existe mais chance de ser substituído”, afirma.

A caricatura de que a geração Z brasileira é preguiçosa, rebelde, “mimizenta”, não se importa com o futuro e não liga para dinheiro é contrariada pelos resultados de pesquisa inédita do Instituto Ipsos em parceria com o Estadão. Esses estereótipos ganharam força a partir de comportamentos observados em outros países. A maioria dos levantamentos, principalmente os realizados nos Estados Unidos e repercutidos no Brasil, retratava, por exemplo, jovens que supostamente levavam os pais para entrevistas de emprego ou planejavam se aposentar mais cedo – comportamentos que não correspondem à realidade brasileira.

O que os jovens de diferentes nacionalidades, incluindo os brasileiros, têm em comum são características moldadas pelo contexto digital, diz Patrícia Pavanelli, diretora de opinião pública da Ipsos e líder da pesquisa sobre a geração Z brasileira no mercado de trabalho.

“Globalmente, percebemos que ela é multitarefa e multiconectada, com maior familiaridade digital, mas não é tão distinta das demais gerações. O que ela vive é um contexto mais diferenciado do que o das outras gerações”, diz Patrícia. Os pais desses jovens, por exemplo, não tiveram de lidar com a inteligência artificial quando entraram no mercado de trabalho.

Enquanto os millennials viveram a juventude durante um período de expansão econômica e melhora do emprego – em 2014, a taxa média de desemprego havia caído para 4,8%, a menor da série histórica do IBGE –, a geração Z cresceu em meio à recessão e à deterioração do mercado de trabalho formal. Em 2015 e 2016, o PIB brasileiro encolheu 3,8% e 3,5%, respectivamente, enquanto o desemprego voltou a subir.

A pesquisa revela que a geração almeja autonomia e flexibilidade, mas também quer dinheiro, ter acesso ao ensino superior e crescer profissionalmente. “Essa geração Z une características que podem soar contraditórias”, avalia Patrícia.

De um lado, há uma parcela significativa que opta pelo trabalho autônomo e, no contexto atual, nem sempre enxergam a ascensão a cargos de liderança como prioridade. Do outro, não abrem mão de modelos tradicionais que fazem parte da carreira, como remuneração, diploma, posições de chefia e CLT. “Os jovens vivem

Dificuldade

Grupo cresceu em meio à recessão e à deterioração do mercado de trabalho formal

uma dicotomia dos valores tradicionais. A flexibilidade continua sendo valorizada, mas não substitui a necessidade de renda adequada. Eles estão preocupados com a independência financeira e com a formação de um patrimônio”, diz Patrícia.

O fato é que hoje eles representam uma parcela significativa da força de trabalho no Brasil. Por isso, o imaginário de uma juventude que é “nemnem” (nem trabalha nem estuda) também não é correta. De acordo com dados do Ministério do Trabalho e do Emprego (MTE), 15,2 milhões de vínculos formais eram ocupados por pessoas de 18 a 29 anos em 2025. Esses jovens somavam 26,1% de todos os empregos com carteira assinada ativos no País.

Os dados confirmam que os estereótipos criados em torno da geração Z partem de uma visão simplista, afirma Rodrigo Vianna, CEO da Mappit, empresa do Talenses Group especializada em vagas de início de carreira. “Os jovens não evitam o mercado, apenas questionam algumas regras que existem. Eles querem crescer profissionalmente, mas não querem sacrificar tudo”, diz.

CARREIRA. É o caso da estudante Amanda Montezzo, de 23 anos, que decidiu abrir mão da carreira que estava construindo no mercado de musicoterapia após episódios de desgaste mental causados pelo trabalho. “A minha geração não está mais aceitando algumas coisas porque quer ter uma vida melhor que a dos pais”, disse, ao lado da mãe Alessandra Montezzo, de 53 anos, que pediu demissão de um emprego que atuava há 15 anos aconselhada pelos filhos.

“Eles são mais impetuosos e corajosos. A minha geração está presa a algumas tradições, como o medo do julgamento e de perder o emprego. Meus filhos me ensinaram a respeitar mais a minha saúde física e mental no trabalho”, diz Alessandra.

*Estado de São Paulo, https://digital.estadao.com.br/o-estado-de-s-paulo, 20/09/2026, pag.B1

 

 

 

 

 

 

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