Folha de São
Paulo,
Ciência, domingo, 23 de janeiro de 2011
 

MARCELO
GLEISER

A
essência da realidade física


 

Não
há dúvida, a mecânica
quântica tem mistérios. Mas é bom
lembrar que ela é uma
construção da mente humana


 

VIVEMOS
NUM mundo quântico.

Talvez
não seja óbvio, mas sob nossa
experiência do real -contínua e ordenada- existe
uma outra realidade, que
obedece a regras bem diferentes. A questão é,
então, como conectar as duas,
isto é, como começar falando de coisas que sequer
são “coisas” -no sentido
de que não têm extensão espacial, como
uma cadeira ou um carro- e chegar em
cadeiras e carros.

Costumo
usar a imagem da “praia
vista à distância” para ilustrar a
transição da realidade quântica
até
nosso dia a dia: de longe, a praia parece contínua. Mas de
perto, vemos sua
descontinuidade, a granularidade da areia. A imagem funciona
até pegarmos um
grão de areia. Não vemos sua essência
quântica, porque cada grão é composto
de
trilhões de bilhões de átomos. Com
esses números, um grão é um objeto
“comum”,
ou “clássico”.

Portanto,
não enxergamos o que ocorre na
essência da realidade física. Temos apenas nossos
experimentos, e eles nos dão
uma imagem incompleta do que ocorre.

A
mecânica quântica (MQ) revolve em
torno do Princípio de Incerteza (PI). Na prática,
o PI impõe uma limitação
fundamental no quanto podemos saber sobre as partículas que
compõem o mundo.
Isso não significa que a MQ é imprecisa; pelo
contrário, é a teoria mais
precisa que há, explicando resultados de experimentos ao
nível atômico e sendo
responsável pela tecnologia digital que define a sociedade
moderna.

O
problema com a MQ não é com o que
sabemos sobre ela, mas com o que não sabemos. E, como muitos
fenômenos
quânticos desafiam nossa intuição,
há uma certa tensão entre os físicos a
respeito
da sua interpretação. A MQ estabelece uma
relação entre o observador e o que é
observado que não existe no dia a dia. Uma mesa é
uma mesa, independentemente
de olharmos para ela. No mundo quântico, não
podemos afirmar que um elétron
existe até que um detector interaja com ele e determine sua
energia ou posição.

Como
definimos a realidade pelo que
existe, a MQ parece determinar que o artefato que detecta é
responsável por
definir a realidade. E como ele é construído por
nós, é a mente humana que
determina a realidade.

Vemos
aqui duas consequências disso.
Primeiro, que a mente passa a ocupar uma posição
central na concepção do real.
Segundo, como o que medimos vem em termos de
informação adquirida,
informação
passa a ser o arcabouço do que chamamos de realidade.
Vários cientistas, sérios
e menos sérios, veem aqui uma espécie de
teleologia: se existimos num cosmo que
foi capaz de gerar a mente humana, talvez o cosmo tenha por objetivo
criar
essas mentes: em outras palavras, o cosmo vira uma espécie
de deus!

Temos
que tomar muito cuidado com esse
tipo de consideração. Primeiro, porque em
praticamente toda a sua existência
(13,7 bilhões de anos), não havia qualquer mente
no cosmo. E, mesmo sem elas,
as coisas progrediram perfeitamente. Segundo, porque a vida,
especialmente a
inteligente, é rara. Terceiro, porque a
informação decorre do uso da razão
para
decodificar as propriedades da matéria. Atribuir a ela uma
existência anterior
à matéria, a meu ver, não faz sentido.
Não há dúvida de que a MQ tem os seus
mistérios.

Mas
é bom lembrar que ela é uma
construção da mente humana.

MARCELO
GLEISER
 é
professor de física teórica no Dartmouth College,
em Hanover (EUA), e autor do
livro “Criação Imperfeita”

 

Categorias: Física

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