Folha de São Paulo, Ciência, sábado, 08 de dezembro de 2007


“Fantasma” de Einstein ainda
cerca física

Gênio que revolucionou a ciência no início do século passado aparece como
arrogante e sarcástico em nova biografia

Correspondências do cientista reveladas somente em 2006 ajudam a compor um
novo perfil em obra do jornalista Walter Isaacson

FLÁVIO DE CARVALHO SERPA, COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Niels Bohr, um dos pioneiros da teoria da mecânica quântica, que explica as
forças que regem o mundo das partículas, não agüentava mais ouvir Albert
Einstein repetindo toda hora sua famosa tirada: “O Senhor Deus não joga dados”.
Era uma contestação aos princípios probabilísticos e estatísticos da nova
física, que o criador da teoria da relatividade nunca engoliu até o fim de sua
vida. Num seminário internacional, Bohr resolveu fazer troça: “Einstein, pare de
ficar dizendo o que Deus deve fazer”.

O sarcasmo é uma pequena amostra da extensão da revolução na ciência
desencadeada por Einstein, que envolveu até especulações sobre como funcionaria
a mente de Deus, a criação do Universo e seu fim inexoravelmente previsível dali
para frente. Mais de cem anos depois das descobertas do maior gênio do século
20, muita gente ainda tenta descobrir como funcionava sua mente.

Foi uma nova leva de cartas de parentes de Albert Einstein, mantidas em
sigilo até o ano passado, que inspirou o jornalista Walter Isaacson,
ex-editor-chefe da revista “Time” e diretor da CNN e autor de biografias de
grande sucesso, como a de Benjamin Franklin.

Em “Einstein, sua Vida, seu Universo”, na lista dos mais vendidos nos EUA,
ele também tenta desvendar os enigmas da mente do físico e suas implicações para
o mundo moderno.

A expectativa quanto a essas cartas pessoais era enorme, especialmente porque
os executores dos arquivos de Einstein já haviam proibido até mesmo seu filho
Hans Albert de publicar algumas cartas herdadas de sua mãe Mileva Maric, a
primeira mulher do gênio.

Mas esses papéis inéditos acabaram sendo a parcela mínima do valor e do
conteúdo do catatau de 656 páginas. Para explicar o trabalho de Einstein,
Isaacson contou com a ajuda e o endosso do físico teórico Brian Greene (autor de
“O Universo Elegante”) e do prêmio Nobel Murray Gell-Mann, descobridor dos
quarks, os tijolos básicos da matéria.

 

Dívida com o passado

Uma medida do empenho do autor em entender o que escreveria é que ele tomou
lições de cálculo tensorial -uma ferramenta matemática que faz tipos diferentes
de geometria a conversarem entre si. Isso foi algo que o próprio Einstein teve
de fazer para formular a teoria da relatividade geral.

Poucas biografias populares mencionam essa dívida de Einstein com os gênios
do cálculo tensorial, os italianos Gregório Ricci-Curbastro e Tullio
Levi-Civita, a matemática criada por eles está na raiz da Relatividade Geral, a
teoria de Einstein que explica a força da gravidade. A grande sacada da teoria
foi considerar a gravidade e a aceleração equivalentes -uma intuição física. Mas
o trabalho só foi para frente com as ferramentas dos italianos.

O trabalho de Isaacson equilibra bem detalhes da vida pessoal e explicações
sobre as teorias criadas por Einstein. Não foi uma tarefa fácil. Além dos
documentos liberados só no ano passado pela Universidade Hebraica, Isaacson teve
de garimpar matéria-prima no Projeto de Documentos de Einstein, concentrada no
Instituto de Tecnologia da Califórnia.

Dez livros de cartas e escritos de Einstein desde sua juventude até os 20
anos já foram editados, mas possivelmente nenhuma grande novidade ou segredo vai
emergir do material não revirado até agora.

 

Tudo não é relativo

O grande desafio era desfazer mitos em torno da vida e obra do gênio alemão.
Começando por aí -Einstein sempre renegou a Alemanha, antes mesmo do nazismo
torná-la intragável para os judeus. Ele também cansou de desmentir a afirmação
até hoje corrente de que sua teoria torna tudo relativo. Na verdade, lembra
Isaacson, a teoria de Einstein procura justamente as invariâncias e dá um valor
absoluto, não relativo a nada, para a velocidade da luz.

O mito de que Einstein tenha sido mau aluno de matemática também é refutado.
Na verdade Einstein volta e meia contestava professores e autoridades com
arrogância e insolência na juventude. Um exemplo foi a reação que ele teve ao
físico Paul Drude, que não lhe deu retorno sobre uma observação que ele tinha
feito a um erro cometido por Drude em artigo. Einstein prometeu “nunca mais dar
atenção a gente desse tipo”. E complementou: “em vez disso vou atacá-los
impiedosamente nas publicações, que é o que eles merecem”.

As relações pessoais do gênio nessa época também destoam radicalmente da
mitológica foto com a língua para fora. Se ele foi bonzinho na velhice, na
juventude era uma peste.

Esse desagradável traço da personalidade de Einstein fascinou Isaacson.
“Precisamos alimentar, nas nossas escolas, o desejo de fazer perguntas, de
desafiar os dogmas e de pensar diferente”, explicou o autor à Folha por e-mail.
“Às vezes parece que forçamos os garotos ao conformismo. Devemos é celebrar a
vontade de desafiar o pensamento convencional.”

O autor crê que esses traços de personalidade poderiam salvar os EUA frente
ao desafio econômico chinês. “Nessa nova era de globalização a criatividade vai
ser premiada”, disse. “Não vamos vencer com o ensino rotineiro, mas sim
imaginando coisas novas. É o que Einstein nos inspira a fazer.”

 

Bússola mágica

A curiosidade do físico parece ter sido sempre uma virtude sua. Um episódio
apontado pelo próprio Einstein como um momento de estalo sobre suas aptidões foi
quando ele ganhou de presente uma bússola. Tinha entre quatro e cinco anos e
estava doente. Ele lembra que ficou tão excitado com os poderes misteriosos da
agulha que se movia influenciada por forças ocultas que começou a tremer. “Posso
ainda me lembrar que essa experiência me marcou profundamente”, escreveu.

Depois, logo que aprendeu a ler passou a consumir vorazmente fascículos de
divulgação científica para jovens. Aos 15 anos já dominava o cálculo integral. É
inegável que Einstein nascera também em uma família culta e antenada com o
progresso científico e tecnológico. O pai e um tio dele se aventuraram a
construir geradores de eletricidade, mas eram maus negociantes e faliram.

O primeiro emprego de Einstein seria definitivo para sua carreira futura. Não
era bem o que ele queria -em vez de um posto na universidade, ele foi parar no
escritório de patentes da Suíça-, mas foi isso que lhe permitiu mergulhar nas
mais avançadas tecnologias da época. Especialmente na questão da sincronização
dos horários de trens, que o deixou a poucos passos para a constatação da
relatividade do espaço-tempo.

 

Rumo à descoberta

“Acho que Einstein teve a sorte de estar num escritório de patentes em vez de
servir como assistente na academia tentando agradar professores seniores e
ensinando a física convencional. Como examinador de patentes ele tinha de
visualizar realidades físicas sob conceitos científicos”, escreve Isaacson.

“Ele conseguia montar equações complexas; contudo, mais importante, ele sabia
que a matemática é a linguagem usada pela natureza para descrever suas
maravilhas”, diz. “Por isso conseguia visualizar o modo como as equações eram
refletidas na realidade -como as equações dos campos eletromagnéticos
descobertas por James Maxwell, por exemplo, iriam se manifestar a um menino que
viajasse ao lado de um raio de luz. Como ele declarou: “A imaginação é mais
importante que o conhecimento”.”

Mas esses ensinamentos de Einstein podem levar a um beco sem muita saída no
mundo moderno. “É importante estimular a individualidade”, dizia o físico, “pois
somente o indivíduo pode produzir idéias novas.” Mas hoje a ciência é obra de
equipes enormes conectadas instantaneamente pela internet. É mais um trabalho
cooperativo do que o produto de estalos geniais. E muitos dos obstáculos e
desafios da física moderna dependem de laboratórios enormes e bilionários.

Esta biografia é uma ótima introdução aos avanços da ciência no início do
século passado e dá conta didaticamente da proposta. O leigo pode entender como
foi concebida a relatividade e os embates de Einstein contra a mecânica
quântica, que ele também ajudou a construir, mas renegou furiosamente depois.

 

Briga quântica

Para o leitor avançado, no entanto, Isaacson fica devendo algumas
contextualizações. A busca de Einstein por uma teoria que unifique a
relatividade e a mecânica quântica -e abolisse o famoso acaso dos lances de
dados- é muito parecida com a perseguida pelos físicos teóricos da teoria de
cordas.

Isaacson falha ao encarar a batalha pessoal de Einstein contra a mecânica
quântica como uma causa perdida e superada na ciência moderna. Não é bem assim.
Muitas correntes teóricas ainda perseguem a revisão dos fundamentos de física,
incluindo os adeptos das cordas como Brian Greene.

Finalmente, Isaacson não ressalta que da briga com os teóricos quânticos
Einstein produziu um de seus mais significativos trabalhos, que só agora começa
a dar frutos. Sua contestação da mecânica quântica incluía a critica a um tipo
de ligação entre partículas separadas no espaço -hoje conhecida na física como
emaranhamento-, que ele chamou de “ação fantasmagórica”.

Como uma bomba de efeito retardado, o emaranhamento, formulado ainda sem este
nome por Einstein, Boris Podolsky e Nathan Rosen em 1935, é hoje um dos
fundamentos da computação quântica, tecnologia ainda incipiente que promete
revolucionar a ciência nas próximas décadas. A idéia de partículas separadas
pela distância manterem estados relacionados está por trás dos qubits, os bits
(unidades mínimas de informação) de computadores quânticos. Quando essas
máquinas quânticas começarem a funcionar, Einstein vai merecer mais um
prodigioso galardão póstumo.


LIVRO
– “Einstein – sua Vida, seu Universo”

Walter
Isaacson; Companhia das Letras; 656 págs., R$64

 

 

Categorias: Física

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