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Arquiteto dos playboys e dos manos
Marcelo Rosenbaum prepara dois novos restaurantes em SP e comemora o sucesso do
quadro ‘Lar, Doce Lar’ na Globo
Rodrigo Brancatelli
A
sorte é que o armário de roupas está abarrotado, cheio de jeans e camisetas
moderninhas. E sua mulher Cristiane sabe cozinhar um pouquinho – ou, pelo menos,
o caderninho de telefones tem um bocado de números de delivery. Não fosse por
isso, Marcelo Rosenbaum provavelmente estaria em sérios apuros. Afundado num
sofá todo branco e felpudo, com sua fala mansa e os olhos atentos, o arquiteto e
decorador de 39 anos assume que nunca volta a pôr os pés em alguma loja ou
restaurante que ajudou a criar depois da inauguração. É algo “psicológico” –
conta ele, coçando a cabeça -, que precisaria ser discutido num divã para ser
explicado direito.
O
grande problema é que, logo, logo, Rosenbaum não terá mais onde comprar roupas
ou mesmo jantar em São Paulo. Com 22 anos de carreira, ele é hoje o arquiteto
queridinho da “descolândia paulistana”. Já desenhou mais de 200 lojas (entre
elas as das marcas Zapping, Sommer, Fause Haten, Cavalera, Zoomp e Levi’s),
dezenas de restaurantes e casas noturnas (como a Casa Pizza, no Itaim, e e o
Clube Glória, no Bom Retiro), outras tantas residências (como as de Turco Loco,
Tufi Duek e Celso Loducca), um sem-número de cenários do São Paulo Fashion Week
e até uma igreja no interior paulista.
“É,
esse negócio de não voltar nos lugares vai começar a me trazer dores de cabeça”,
brinca ele, quase uma estrela de tevê depois do sucesso do Lar, Doce Lar, quadro
do programa Caldeirão do Huck que dá uma recauchutagem geral na casa de alguma
família da periferia. Nas próximas semanas, Rosenbaum vai adicionar mais dois
restaurantes na listinha para nunca mais botar os pés – o japonês Shaya (de João
Paulo Diniz e Marcus Buaiz), na Rua Amauri, e a nova casa do chef Alex Atala,
ainda sem nome.
Ex-bicho grilo, que adorava caminhadas no campo e passeios no Guarujá, Rosenbaum
atualmente encarna esse lado, digamos, mais cool de São Paulo. Em faculdades de
arquitetura, é tido como um profissional que consegue em um mesmo ambiente
colocar uma luxuosa cadeira Philippe Starck de R$ 55 mil, uma samambaia de
plástico, uma Santa Ceia de baquelite e fitinhas do Senhor do Bonfim – sempre
com elegância. O arquiteto judeu, devoto fervoroso de Santo Expedito e com uma
imagem de Buda gigantesca em sua casa no Sumaré (alugada, diga-se de passagem) é
daqueles que desconfiam de qualquer decoração discreta e limpa demais, onde o
tapete fica combinadinho com o sofá e as cadeiras fazem par de vaso com os
abajures.
“A
casa tem de transmitir a alma de quem vive naquele espaço. Tento nos meus
projetos resgatar um pouco da arte popular brasileira e da memória coletiva.
Quando viajo, estou sempre colecionando cacarecos, brinquedinhos, essas coisas
populares”, conta Rosenbaum. Nascido em Santo André, filho de pai advogado e mãe
dona de casa, ele começou a trabalhar logo no primeiro ano da faculdade, quando
fez o projeto de uma loja multimarcas da mãe de sua namorada na época. “Cursei
arquitetura porque… sei lá… só tinha isso na cabeça”, conta o pai coruja de
Bertha, de 5 anos, e de Ian, de 1 – o nome dos filhos e as datas de concepção e
de nascimento da dupla estão tatuadas ao longo de todo o seu braço direito. “A
única outra profissão que cogitei foi diplomata, mas essa eu abandonei ainda
criança.”
Uma
recente reforma de um apartamento nos Jardins rendeu a Rosenbaum a indicação de
uma revista australiana como um dos cem mais bonitos do mundo. Apesar de ser a
cara desse mundinho descolado da cidade, o arquiteto até levanta um pouco do
sofá para falar com toda a sinceridade: “Você quer saber? Eu queria de verdade
desenhar móveis populares, das Casas Bahia, esses que são vendidos a prestações.
Não é brincadeira, sempre falei isso. Quero trabalhar com a base da pirâmide,
não só com o topo. Todo mundo merece morar bem, se sentir bem em casa.”
PAIXÃO
Essa vontade está sendo aos poucos realizada no quadro Lar, Doce Lar, irmão
brasileiro do reality show americano Extreme Makeover. A produção do
apresentador Luciano Huck seleciona a carta de uma família com história
dramática que precise de uma casa nova. O Ibope da Rede Globo costuma pular de
13 para 25 pontos quando começa o quadro. Rosenbaum faz o projeto em sete dias –
destrói tudo, escolhe novos móveis, às vezes discute com os pedreiros e no final
sempre se emociona com o resultado. Mas sem afetação ou uma postura ‘sou-pop-e-faço-coisas-estranhas-nas-casas-dos-outros-para-ser-cool’.
“Nunca tinha visto esse programa estrangeiro na televisão. Na verdade, não sou
muito de assistir a TV. Por isso sigo meus instintos, tento entender o que a
família precisa. Não vou impondo minhas vontades. É a casa da pessoa, ela
precisa se sentir confortável ali.”
Rosenbaum só não fala com mais paixão da arquitetura do que dos projetos sociais
com os quais está envolvido. No dia 18, ele vai fazer um leilão com todos os
móveis que criou para seu espaço na Casa Cor 2007. O evento será no Centro da
Cultura Judaica e toda a renda, revertida para a ONG Dança Vida, que já atendeu
mais de mil crianças em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. “Não sou cego
nem alienado, sei que a elite não representa quase nada na nossa sociedade”,
diz. “O leilão é uma chance de ajudar um pouquinho com o meu trabalho e
agradecer por todas as coisas boas que estou recebendo atualmente.”
Sou
workaholic, desde a adolescência , destaca
Marcelo
Rosenbaum mal tem tido tempo de respirar. Além de gravar seu programa quinzenal,
está rodando o Brasil para dar palestras com temas como Design e Emoção e
Memória Coletiva: Criatividade, Inovação e Brasilidade. Nos últimos meses,
participou de debates e exposições até em Istambul. Prepara quase uma dúzia de
cenários de desfiles do próximo São Paulo Fashion Week. E faz projetos para
festas. E desenha móveis. E faz pesquisas. E cuida dos dois filhos pestinhas. E
ajuda na construção da casa do seu pai em Campos de Jordão. Ah, e escreve um
livro também. Dar cabo aos seus projetos de arquitetura mesmo, só se for de
madrugada.
“Sou
workaholic, desde a adolescência”, diz. “O grande problema é que tudo é muito
sofrido para mim, é angústia. Não consigo me desligar, os trabalhos são sempre
penosos. Mas não estou reclamando não, nem penso em colocar o pé no freio, pelo
menos não agora. Acho que ainda estou na fase de ralar bastante.”
Para
criar o conceito do restaurante Shaya, que será inaugurado na semana que vem na
Rua Amauri, até que foi mais fácil. “Falaram que ia ser um japonês, branco,
confortável e sofisticado”, diz. “Assim é tranqüilo.” Já o novo empreendimento
do chef Alex Atala, que começou se chamando Tupi e já teve pelo menos outros
dois nomes (o último que se tem notícia é Dito e Dalva), já demandou duas
viagens a Belo Horizonte para pesquisas de objetos e materiais. “Fiquei lá
sozinho analisando a arquitetura popular mineira para tentar fazer algo
parecido, mas de uma forma mais contemporânea. Deve inaugurar em janeiro,
fevereiro, mas tudo pode mudar. Nem eu sei o nome do lugar direito.”
Quando
fala da arquitetura paulistana, no entanto, Rosenbaum fecha a cara. “Esses
prédios neoclássicos… Nem sei o que falar. Se existem esses prédios, é porque
vendem. E, se vendem, as construtoras vão fazer um monte de neoclássicos, não
tem jeito. A elite precisa de educação, cara, de informação. Moro no Sumaré e
trabalho em Pinheiros, então levo uma vida meio de vilinha. Cumprimento o
padeiro, o jornaleiro, o taxista. É que nem viver numa cidade do interior. Assim
é uma delícia.”
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