Você tem medo de quê? Para muitos jovens, a resposta é: ‘Do futuro’
Em um mundo marcado por novas formas de trabalho e desafios climáticos e geopolíticos, pensar o amanhã é um desafio para a juventude
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Ecoansiedade: sim, as mudanças climáticas também afetam a sua saúde mental
Mais recentemente, um levantamento realizado pelo Centro de Estudos SoU_Ciência, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com o Instituto Ideia, verificou que a “falta de perspectiva de futuro” era apontada por jovens de 18 a 27 anos como um de seus principais problemas.
Outra pesquisa, desenvolvida pela organização internacional Teach the Future, também aponta o fenômeno. No estudo, o termo “ansiedade” foi mencionado por 78,5% dos jovens ao se referirem ao amanhã, e 62% dos participantes se identificaram com a frase “Sinto medo do que pode acontecer comigo no futuro”.
Batizado de “Da Futurofobia à Futurotopia: sintomas e travessias possíveis das novas gerações”, o levantamento define a futurofobia como o “sentimento crescente de que o que está por vir tende a ser pior do que o que temos hoje”. Não se trata de uma doença, mas de uma resposta emocional esperada quando as circunstâncias do presente se apresentam instáveis.
“Observamos uma tendência cultural muito forte de criar neologismos para nomear sentimentos humanos que são comuns e perfeitamente normais”, diz Sara Bottino, psiquiatra do Serviço de Saúde do Corpo Discente da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis e Políticas Afirmativas da Unifesp.
E não faltam motivos para a incerteza. “O jovem que projeta o amanhã depara-se com uma catástrofe climática cientificamente comprovada”, lembra a psicóloga Tássia de Almeida, doutora em Psicologia Social e do Trabalho pela Universidade de São Paulo (USP).
Somam-se às mudanças climáticas os conflitos geopolíticos, a experiência recente de uma pandemia, a dificuldade de diálogo em um mundo polarizado e o crescente uso de inteligência artificial. “Diante disso, exigir que a juventude seja otimista em relação ao futuro é exigir um descompromisso com a realidade”, afirma Tássia.
Instabilidade financeira e a cobrança pelo sucesso
A pesquisa da Teach the Future, divulgada em 2025, ouviu 689 jovens entre 18 e 28 anos, que responderam a um questionário online com perguntas objetivas e abertas. A amostra contou com participantes de todas as regiões do País, e a maioria das respostas veio do Centro-Oeste (32,4%), seguido pelo Sudeste (26,3%), Nordeste (16%), Norte (13,5%) e Sul (11,8%).
Em relação ao perfil, 63,7% se identificaram como mulheres; 35,6%, como homens e 0,4%, como pessoas não binárias. Cerca de 52% dos entrevistados se autodeclararam pardos; 33,1%, brancos; 12,5%, pretos; 1,6%, amarelos e 0,3% afirmaram ser indígenas. Somado ao questionário, o estudo promoveu sete conversas abertas com jovens de diferentes regiões do País que atuam em áreas emergentes e projetos relacionados ao futuro em campos como justiça climática, comunicação e design.
Na pesquisa, a estabilidade financeira foi mencionada como principal preocupação por 79% dos jovens, e 64,9% dos entrevistados desempregados expressaram medo elevado. “A estabilidade é hoje o objetivo mais difícil de alcançar em um mercado de trabalho hiperflexível e que estimula a rotatividade constante”, aponta Tássia.
Mas a angústia começa bem antes das tentativas de entrar no mercado. De acordo com os especialistas ouvidos pelo Pulsa, a cobrança por ser bem-sucedido é o principal ponto para entender o sofrimento dos jovens — e ela pode remontar ao período de preparação para o vestibular.
“Os jovens estão imersos em uma cultura de estímulo permanente ao sucesso, onde alcançar uma meta significa apenas passar para a próxima”, pontua Tássia. Segundo ela, esse patamar torna o futuro um espaço instável, uma vez que a barra de exigência sobe constantemente.
A psicóloga também explica que esse processo cria outro fenômeno: jovens que não fazem planos. “Espera-se que o jovem desenvolva os recursos psicológicos, subjetivos e materiais necessários para dar conta de tudo. Se ele não consegue, a situação é lida como uma falha pessoal e um fracasso subjetivo. Diante disso, alguns jovens adotam uma postura defensiva.”
“Quando o jovem não atinge as metas irreais que lhe foram impostas, ele internaliza a culpa, concluindo que não possui valor ou competência suficiente. Esse processo distorce a autoimagem e corrói a saúde mental”, complementa Sara.
Comparação com a vida irreal das redes
Para Marcelo Afonso Ribeiro, professor do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da USP e coordenador do Centro de Psicologia Aplicada ao Trabalho, as plataformas digitais também fazem parte da equação ao propagarem informações fragmentadas em detrimento de visões mais amplas e contextualizadas.
As plataformas também promovem uma superexposição de narrativas de vida artificiais. “Essa curadoria estética da vida cria a ilusão de que o mundo ideal é composto exclusivamente pelo belo, pelo prazeroso e pelo bem-sucedido”, acrescenta Sara. “Para um jovem psicologicamente vulnerável, a imersão nessa realidade virtual hipercompetitiva é extremamente nociva.”
O papel da família
O contexto familiar é outro fator importante. “A família, em geral, ainda habita o século XX e os jovens tentam viver o século XXI”, afirma Ribeiro.
Em famílias bem-sucedidas, os jovens sentem a necessidade de igualar ou superar o patamar financeiro dos pais, rejeitando o patrimônio familiar para provar o seu próprio valor. Já em contextos de vulnerabilidade, o apoio familiar pode vir acompanhado de uma sensação de endividamento moral, com a “obrigação” de ser bem-sucedido para assegurar o sustento dos pais na velhice.
Há também casos de pais que enfrentaram barreiras em suas trajetórias profissionais e, por isso, acabam projetando nos filhos a responsabilidade de realizar os seus próprios sonhos.
As pressões, afirmam os especialistas, são ainda maiores entre mulheres que vivenciam a cobrança por “constituir família” enquanto buscam criar e consolidar a carreira e entre jovens LGBTQIA+ com trajetórias marcadas por conflitos decorrentes de sua orientação sexual.
“Indivíduos submetidos de forma prolongada a ambientes instáveis manifestam níveis de estresse mais elevados, o que eleva drasticamente a probabilidade de adoecimento psíquico”, afirma Sara.
Ao mesmo tempo, os especialistas reforçam que a família pode ser um importante espaço de acolhimento, servindo como apoio diante das instabilidades e incertezas impostas pelo futuro. Isso depende da abertura ao diálogo e da compreensão das dúvidas e receios que permeiam a juventude na atualidade.
Nesse sentido, ressignificar o trabalho pode contribuir para uma nova ideia de sucesso. Tássia cita o exemplo de um jovem que participou de sua pesquisa de doutorado. Ele fundou um coletivo de hip-hop no território em que mora e, com essa iniciativa, conseguiu sustento material, além de construir um propósito coletivo para a comunidade. “Esse engajamento comunitário é um fator protetivo fundamental para a saúde mental, pois confere sentido à existência para além do âmbito individual”, diz.
Ribeiro aponta a necessidade de auxiliar os jovens a desenvolverem projetos próprios e possíveis, que não se baseiam em modelos prontos oferecidos pelas redes sociais, e reforça a importância de escutar e dar voz à população jovem, envolvendo-a nos processos que lhe dizem respeito.
Já Sara incentiva ações de autocuidado e principalmente a prática de atividade física como forma de reduzir sintomas ansiosos e aprender a lidar com os desafios do presente e do futuro. “Essa experiência corpórea serve como uma excelente metáfora existencial para o jovem, ensinando-o de forma concreta a tolerar a frustração, a respeitar processos temporais e a compreender que a superação de desafios é uma construção gradativa baseada na persistência e na aprendizagem contínua com os próprios erros.”
*OESP – https://www.estadao.com.br/pulsa/vida-leve/voce-tem-medo-de-que-para-muitos-jovens-a-resposta-e-do-futuro/?srsltid=AYCX9vKMluIIN-lf65AbPrBDRRMdzc4EVwgb4ixamY3JZ11VLeOyp9My, (26/09/2026)