Assessoria de luxo – Profissionais como Giuliana Passarelli trabalham como ‘babás de milionários’
JAYANNE RODRIGUES | OESP*
Depois de 13 anos como comissária de bordo, Laurie Peischl, de 37 anos, estava cansada das mudanças de fuso horário e da falta de flexibilidade nas escalas de trabalho. Foi quando decidiu fazer uma transição de carreira. Na nova rotina diz ter mais tempo para o filho adolescente. Outro fator que a fez mudar de área foi a remuneração. Na aviação, o maior salário que alcançou foi de R$ 7 mil por mês. Hoje, somente em um fim de semana, ela consegue faturar mais de R$ 2,5 mil, valor semelhante a um plantão médico no Brasil. Sua nova profissão? Babá de luxo.
Ela começou por indicação de uma prima no ano passado. A partir daí, passou a ser procurada por outras famílias. Logo percebeu que a experiência na aviação, somada ao inglês avançado, a diferenciavam de uma “babá comum”. “Eu vi que tinha mercado”, conta Laurie, que desde então fez cursos de primeiros socorros, cuidados com recém-nascidos, pós-parto e agora se prepara para estudar neurociência.
A ex-comissária está num mercado importado do exterior que ganhou tração no Brasil nos últimos anos pela crescente demanda da elite brasileira. O chamado “private staff”, serviços personalizados para famílias de alto padrão, reúne não apenas babás de luxo, como também governantas, motoristas, chefs de cozinha, mordomos e gerentes domésticos.
Esse mercado está atraindo, principalmente, profissionais que fizeram carreira na hotelaria. Com formação em hospitalidade, eles são atraídos para residências de luxo pela remuneração mais alta, segundo especialistas ouvidos pela reportagem. Ao mesmo tempo, também começam a ser recrutado jovens dispostos a abandonar o setor corporativo por salários atrativos.
É justamente o perfil de profissionais mais jovens que a recrutadora Bia Greco tem buscado. Há 15 anos, ela fundou uma agência especializada em recrutamento, treinamento e mentoria de babás de luxo. “Muitos jovens estão deixando de atuar nas empresas para virar babá de luxo no Brasil e no exterior”, diz. No início, Bia buscava candidatas em faculdades e em locais frequentados por cuidadoras, como a Praça Buenos Aires, em Higienópolis.
Com o tempo, o processo de seleção ficou mais rigoroso. Hoje, a empresária mantém um banco com cerca de mil profissionais e compara a carreira de babás de luxo com áreas tradicionais. “Hoje, babá tem carreira igual à de médico”, diz.
Para atuar como babá de luxo, a candidata precisa de qualificações técnicas e comportamentais, como conhecimento em primeiros socorros, sono do bebê, introdução alimentar, desenvolvimento infantil e gestão de emoções, diz.
A maioria dos contratos exige confidencialidade. Em alguns casos, o inglês intermediário é exigido em famílias que viajam com frequência. Para quem optar pela carreira internacional, o idioma é obrigatório e o salário varia entre US$ 3 mil e US$ 6 mil dólares (R$ 15 mil e R$ 31 mil).
Já uma babá comum ganha entre R$ 3 mil e R$ 7 mil. No mercado de alto padrão brasileiro, o salário parte de R$ 8 mil e pode chegar a R$ 20 mil. “É um público que tem condição de pagar por várias babás, domésticas e outros funcionários”, conta Bia.
STAFF ROBUSTO. Enquanto setores como os de supermercados, panificação e indústria sofrem com a escassez de mão de obra, há uma onda de profissionais que decidem trocar empregos corporativos para trabalhar na casa de ultrarricos que pagam por um staff robusto.
É o caso da publicitária Giuliana Passarelli, de 30 anos, que se intitula como “babá de milionário” nas redes sociais. Ela marca dentista, faz compras, leva cachorro no veterinário, escolhe as roupas que o cliente vai vestir, organiza festas de aniversário e viagens, cuida de consertos da casa, gerencia funcionários e realiza pagamentos. O cliente não é uma criança, mas um executivo de 35 anos que a contratou como assistente pessoal há cinco anos.
Guinada Profissionais com cargos corporativos estão mudando para trabalhar na casa de ultrarricos
A proposta de emprego surgiu por indicação da ex-mulher do chefe, que buscava alguém com inglês fluente e disponibilidade para viajar. Na época, ela largou o emprego em uma agência de eventos. “Não fazia mais sentido ficar em frente ao computador de 8h às 18h”, relembra. Apesar do contrato prever jornada das 9h às 17h, a rotina depende da agenda do executivo. “Lido com questões de um milionário, por questões de segurança não podemos ter rotina fixa.”
O trabalho a levou a Singapura, Coreia do Sul e até a uma viagem à França organizada em menos de 48 horas para buscar uma Ferrari que o chefe acabara de comprar. “Eu faço tudo que ele não quer mais fazer”, resume. Contratada no regime CLT, ela tem plano de saúde, 13º salário e vale alimentação. Além das viagens anuais ao exterior com tudo pago.
Embora não tenha revelado o salário, admitiu que estava dentro da média do mercado, entre R$ 20 mil e R$ 30 mil. O valor é seis vezes maior do que recebia na agência de publicidade.
GOVERNANTA. Entre os recémchegados ao mundo dos ultrarricos está Shirley Ribeiro, de 48 anos. Em 2019, em paralelo ao trabalho fixo, ela começou a atuar como personal organizer nos fins de semana e feriados. Na Baixada Santista, formou uma carteira de clientes de alta renda. “No meu tempo livre, organizava casas. Era minha forma de testar o que eu queria ser”, conta.
Na pandemia, após o diagnóstico de burnout, decidiu largar o emprego de mais de duas décadas no Senac em cargos de gestão, onde chegou a liderar equipes com mais de 30 pessoas. A partir daí, fez cursos de governança para residências de luxo. “Eu pensei: se administro uma empresa, posso administrar uma casa. Uma casa de alto padrão é uma empresa”, diz.
Neste ano, uma escola de formação de governantas em São Paulo, onde havia feito um curso, a convidou para participar da seleção para uma vaga. Foi aprovada e deixou o litoral para assumir a função na capital, onde trabalha desde junho com jornada de trabalho de segunda a sexta, de 9h às 17h.
Shirley administra funcionários, acompanha novas contratações, controla cardápios, rotina de compras e toda a operação da casa. Assim como Giuliana, não quis especificar o salário, mas diz receber dentro da média da governança de luxo, que varia de R$ 15 mil e pode chegar a R$ 60 mil.
A agência em questão, que convidou Shirley para o processo seletivo, é aGovernanta Brasil, especializada em gerenciamento doméstico de luxo no Brasil. Fundada há 15 anos, atua em duas frentes: recrutamento especializado e o carrochefe, que é a implantação de governança residencial. O trabalho envolve a estruturação completa do staff, treinamento, padronização de rotinas, definição de padrões de hospitalidade e transição de equipes domésticas existentes.
O cofudandor Paulo Alexandre tem mais de 30 anos de experiência no mercado. Já atuou como mordomo, gerente doméstico e em outras funções em residências de luxo. Ele e a mulher, Cristiana Alexandre, também veterana do ramo, criaram a empresa ao identificar que famílias ultrarricas brasileiras buscavam recrutadores no exterior para montar equipes domésticas.
A proposta da aGovernanta Brasil foi desenvolver uma metodologia própria para atender a demanda local, mas com o padrão internacional. A clientela é formada majoritariamente por bilionários, entre eles executivos da Ambev, Stone e Localiza, que têm várias propriedades para administrar no País. “A família bilionária idealiza o padrão de vida com moradia principal e casa secundárias para lazer e uma ou mais de negócios”, diz Alexandre.
*Estado de São Paulo, https://digital.estadao.com.br/o-estado-de-s-paulo, 06/12/2025, pag. B16