Ora, se todo mundo está exausto, será que é mesmo uma questão individual?
Michelle Prazeres – Colunista de VivaBem | UOL*
Vamos fazer um teste? Se tiver alguém aí do seu lado enquanto você lê este texto (e, claro, se você tiver intimidade suficiente para abordar esta pessoa), pergunte se ela se sente cansada. Se tiver mais de uma pessoa, pergunte a quantas for possível.
Eu costumo fazer este experimento sempre que vou dar alguma aula ou curso ou mesmo quando vou começar algum encontro de grupos que eu facilito.
Nas minhas experiências, o “resultado” é sempre o mesmo: todas as pessoas se sentem cansadas, exaustas, esgotadas ou não se lembram da última vez em que dormiram as famigeradas recomendadas oito horas de sono.
Da última vez em que fiz isso com uma plateia, algumas pessoas levantaram as duas mãos quando perguntei “quem aqui se sente exausto?”, numa evidente brincadeira bem humorada para reforçar que, sim, estamos todos(as) (muito) exaustos(as).
Claro que cada pessoa sente seu cansaço de um lugar muito particular. Mas o que busco evidenciar quando faço esta experiência é justamente o fato de que: se todo mundo está exausto, a exaustão é um sintoma que merece um olhar coletivo.
Na minha pesquisa, é a noção de aceleração social do tempo que ajuda a gente a entender isso. Quando compreendida como condição, a aceleração ganha status de questão sistêmica; e, portanto, demanda olhar, tratamento e ações também desta ordem.
Hartmut Rosa é o teórico alemão que cunhou a expressão “aceleração social do tempo”. E ela apresenta a ideia central de que não se trata de qualquer aceleração, mas de uma aceleração que é social; ou seja: atinge a todos nós. Rosa afirma que ela é técnica, do ritmo de vida e das transformações sociais.
Ele desenvolveu este pensamento em toda uma pesquisa que rendeu muitas obras. Corro aqui o risco de ser incoerente ao resumir toda esta obra em um pensamento muito sintético. Mas, basicamente, ele afirma que estamos vivendo em menos unidades de tempo (segundos, horas, dias, meses, anos) as coisas que vivíamos em mais unidades de tempo.
Ou seja: transformações sociais que levavam séculos para acontecer estão acontecendo em décadas; processos sociais que levavam décadas hoje levam anos; questões cotidianas que demandam anos agora levam meses e assim por diante.
Em “Aceleração: a transformação das estruturas temporais na modernidade”, Rosa afirma que “a sociedade moderna pode ser entendida como sociedade da aceleração no sentido de que ela contém em si (através de inúmeros pressupostos estruturais e culturais) uma junção de ambas as formas de aceleração —a aceleração técnica e a intensificação do ritmo de vida através da redução de recursos temporais— e da tendência à aceleração e ao crescimento”.
Para ele, “o tempo é, ao mesmo tempo, privado e íntimo e completamente determinado socialmente. Os ritmos, sequências, duração e velocidade do tempo social, assim como os horizontes e perspectivas temporais se furtam ao controle individual, ao mesmo tempo, desenvolve-se claramente em efeito normativo, coordenador e regulador de ações”.
Ou seja: Rosa aponta que o tempo tem sido determinado socialmente (pela lógica do desempenho na sociedade do cansaço, para trazer aqui uma conversa com o sul-coreano Byung-Chul Han) e que a aceleração está conectada com a pressão tecnológica e com a lógica do crescimento, do progresso e do desenvolvimento.
O que ele nos ajuda a compreender é que a aceleração institui a velocidade como norma, gerando uma espécie de pressão pela pressa. Este mundo, para ele, a despeito de parecer movimentado, gera um efeito de “paralisia frenética”. Parece que estamos em movimento, mas estamos correndo e parados no mesmo lugar, derrapando como humanidade, gastando tempo e energia, mas sem tampouco nos movermos.
Do ponto de vista individual, essa pode ser a engrenagem da sensação de esgotamento: muitas pessoas me relatam que passam o dia todo fazendo mil coisas, mas chegam no final do dia com a sensação de que foram improdutivas.
No dia em que a pessoa se sente assim, o imperativo do mundo acelerado venceu: é sinal de que a pessoa correu por pressão da pressa, operando no modo automático, anestésico e ininterrupto, mas —mesmo produzindo o que foi possível naquele dia; e às vezes é muito mais do que o humanamente possível para aquela pessoa— sente que não “entregou tudo” que podia.
E isso não acontece só no âmbito do trabalho, porque como Han nos ajuda a entender, o grande escândalo da aceleração não é somente a dedicação 24/7 ao trabalho; mas a dedicação 24/7 ao desempenho em todos os campos da vida, inclusive o campo dos afetos, da diversão, do “tempo livre”.
Então, da próxima vez em que se sentir exausto(a), saiba que tem um tanto desta exaustão que é parte desta engrenagem.
Vale sempre reforçar que minha intenção nunca é invalidar os aspectos humanos, relacionais, contextuais ou situacionais que compõem cada quadro de cansaço; pelo contrário: meu exercício é sempre apontar o quanto deste esgotamento é epidêmico e generalizado.
Para lidar com a parte da exaustão que é sistêmica, precisamos de saídas também sistêmicas. Então, sim, estou dizendo que parte das questões de saúde mental, cuidado e bem-estar só se resolvem com políticas públicas e garantias de direitos.
Isso em geral origina um duplo afeto: um sentimento de “ufa, não estou exaurido sozinho, então o problema não é só comigo” e “nossa, mas se é isso, como saímos desta roda viva de cansaço generalizado?”.
Uma saída acolhedora possível (individualmente) é pensar o que desta sobrecarga que te exaure está sob sua governabilidade e pode ser transformado a partir de escolhas e estratégias suas e o que não pode mudar e é preciso acolher e acomodar.
Só é importante ponderar que nem todo mundo pode fazer boas escolhas para desacelerar. E prescrever descanso em contextos desiguais, entendendo que todo mundo tem as mesmas 24 horas, pode ser duplamente violento.
É por isso que acredito que podemos buscar estas saídas também coletivamente, sempre em movimento.
*Portal Uol, https://www.uol.com.br/vivabem/colunas/michelle-prazeres/2025/10/26/para-entender-a-nossa-aceleracao-e-por-que-a-pressa-virou-regra.htm, 26/10/2025