Será que estamos perdendo a essência da medicina?

A medicina não se limita ao consultório ou ao centro cirúrgico. Ela precisa alcançar quem vive longe, não tem recursos e depende da solidariedade

Por Marcelo Averbach* | OESP**

“Resgatei a essência da medicina e relembrei a razão de ter escolhido essa carreira”. Ouvi essa afirmação de um acadêmico durante um trabalho voluntário de atendimento à população ribeirinha da Amazônia. O depoimento espontâneo me encantou – ele conversava com outros estudantes da expedição e demonstrava genuíno engajamento com nosso propósito. Por outro lado, revelava algo preocupante: seu curso não o mantinha conectado com o sentido da profissão. E mais grave, essa é a realidade de muitos alunos de Medicina, revelando que um grupo significativo de faculdades falha na formação dos futuros médicos.

Esse fato foi escancarado pelos resultados divulgados pelo Ministério da Educação a partir da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) em que os estudantes fizeram provas e os cursos de Medicina foram avaliados com notas que variaram de um a cinco. As instituições que obtiveram conceitos um ou dois foram classificadas como insuficientes. Dos 351 cursos, 107 (30,5%) apresentaram baixo desempenho. As faculdades municipais e privadas concentraram os piores resultados.

O número de faculdades de medicina no País cresceu de forma exponencial na última década. Em 2014, havia 252 escolas; em 2024, esse total já alcançava 448 instituições, aproximando-se atualmente de 500 cursos em funcionamento. A expansão não foi acompanhada pela qualidade do ensino, levantando questões sobre os rumos da formação médica no Brasil. É um quadro grave que coloca em risco a saúde e a vida da população. Também prejudica a produção científica porque alunos com formação deficiente não terão condições de dedicar-se à pesquisa que gera medicamentos, vacinas, procedimentos terapêuticos e inovações tecnológicas.

Em grande parte das novas escolas prevalece uma mentalidade mercantil, que trata o aluno como produto gerador de lucro, além de os estudantes estarem mais preocupados com ganhos financeiros do que com a vocação. Não que o dinheiro não seja importante, ainda mais em uma profissão que exige tanto investimento, mas isso não pode se sobrepor à responsabilidade com a democratização do cuidado.

A medicina contemporânea se distanciou de iniciativas como o Projeto Rondon, criado em 1967, um marco ao conectar universitários às realidades mais profundas do País. Embora eu não tenha participado, ouvi de gerações anteriores à minha histórias de como essa iniciativa contribuiu para que estudantes tivessem uma visão humana de sua profissão. Ao atuar em regiões remotas, eles fortaleciam o respeito aos povos originários e às comunidades locais.

Infelizmente, o ambiente atual – competitivo, tecnológico e centrado em especializações – afasta os alunos do compromisso social. Parte dos jovens médicos está mais exposta a simuladores do que à vulnerabilidade humana, mais próximos de equipamentos sofisticados do que de populações invisíveis.

Atividades como as que praticamos na Amazônia resgatam a essência de nossa profissão. Quando estudantes, residentes e jovens médicos embarcam conosco, vivenciam algo que dificilmente se encontra em salas de aula ou em grandes hospitais. O cuidado genuíno, o contato humano, a necessidade imediata, a ausência de recursos, o valor da presença reconfiguram a percepção desses jovens sobre sua formação. É no encontro entre vocação e necessidade que se formam médicos completos.

Num país tão desigual, estudantes e profissionais precisam entender que a medicina não se limita ao consultório ou ao centro cirúrgico. Ela precisa alcançar quem vive longe, não tem recursos e depende da solidariedade. Isso não é apenas um ato de voluntariado, mas um componente ético da formação médica. São exceções os profissionais e estudantes de Medicina conectados com esses valores.

Nós que estamos envolvidos no trabalho voluntário na Amazônia também temos consciência da responsabilidade do poder público. A falta crônica de médicos e de acesso à saúde não pode ser tratada apenas como um problema estrutural. Há espaço para políticas públicas mais proativas que incentivem estudantes, residentes e médicos a atuarem em regiões desassistidas. Bolsas, incentivos, programas de interiorização, parcerias com ONGs e estágios supervisionados poderiam transformar esse cenário. Tudo isso faz parte de uma estratégia de justiça social.

Quando aquele jovem acadêmico disse ter resgatado a essência da medicina em meio à floresta, ele não estava relatando apenas uma experiência pessoal, mas denunciando uma lacuna sistêmica. Enquanto os resultados do Enamed expõem essa crise, iniciativas como as expedições na Amazônia revelam que a medicina se completa no encontro entre técnica e humanidade, entre conhecimento e compaixão. Não se trata de romantizar a precariedade, mas de reconhecer que um médico só se forma integralmente ao compreender que sua vocação transcende consultórios e tecnologias – ela se realiza plenamente no cuidado com quem mais precisa.

*Opinião por Marcelo Averbach – Presidente da ONG Zoé, é médico e professor da Faculdade Sírio-Libanês

**Estado de São Paulo, https://www.estadao.com.br/opiniao/espaco-aberto/sera-que-estamos-perdendo-a-essencia-da-medicina/?srsltid=AfmBOooIvmw8gGGYbFfMaOSehjLbv8dG9ZVBwFyTX66AcSHgoO22zAmI, 02/02/2026

Categorias: Medicina

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