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IG SÃO PAULO - IG EDUCAÇÃO – 08/03/2018 – SÃO PAULO, SP

De brinquedos a exemplos: como abordar a igualdade de gênero dentro das escolas

JÉSSICA FREITAS

Todo o ano é a mesma coisa: quando chega o Dia Internacional da Mulher , questões sobre o preconceito de gênero e a igualdade entre homens e mulheres ganham uma atenção redobrada. No entanto, já faz algum tempo desde que essas pautas deixaram de ser tocadas exclusivamente em todo o dia 8 de março.

Afinal, quem não notou o quanto tem se falado sobre o assunto nas redes sociais? E no campo da publicidade, que o discurso vem sendo alterado? No cinema, o tema vem ganhando espaço também, assim como na literatura, nos programas de TV e na música. O preconceito de gênerose tornou uma forte pauta política, social e é claro que não seria diferente na área acadêmica.

`Tudo o que acontece na mídia tem impacto sobre o currículo escolar`, aponta ao iG a educadora e colunista Andrea Ramal. Doutora em Educação, ela analisa que foi por reflexo do que é falado fora dos muros da escola que a igualdade entre gêneros entrou na sala de aula. `O próprio Enem que, no tema da redação de 2015 falou sobre a violência contra a mulher, deixa isso claro`, exemplifica.

Para Andrea, no entanto, o assunto ainda é tratado nas escolas de uma forma muito transversal, sem abordagens curriculares, e em momentos específicos como no próprio Dia da Mulher. `Falta que a escola incorpore isso na prática cotidiana`, pontua.

De nada adianta, exemplifica, que um professor fale rapidamente sobre a equidade de gêneros, enquanto outro docente ainda pensa que meninos são mais aptos a carreiras na área de exatas, e meninas são naturalmente direcionadas às ciências humanas.

`Outro exemplo é quando, na aula de educação física, os alunos são educados a jogar futebol, enquanto as alunas são direcionadas a participar de aulas de dança`, lembra Andrea. `São escolhas como essas que reforçam um estereótipo de gênero`, analisa.

Cortando sonhos pela raiz

Além de acentuar uma série de comportamentos negativos que podem vir de casa, não trabalhar a igualdade de gêneros no aspecto da educação pode acabar limitando as oportunidades de carreira e de futuro para meninos e meninas.

A avaliação foi feita por Joana Chagas, gerente de programas da ONU Mulheres , em um debate ocorrido na semana passada, no Rio de Janeiro, sobre o papel da educação na formação do cidadão e na consolidação da paz.

Para ela, estereótipos de gênero são, em sua maioria, `nocivos`, e a busca pela equidade é necessária para criar uma `cultura de direitos humanos, paz e cidadania`.

`A gente sabe que os estereótipos de gênero – que são aqueles papéis que a sociedade, a cultura, atribuem a homens e mulheres – são, na maioria das vezes, nocivos e limitam as oportunidades de meninos e meninas serem e realizarem seus sonhos”, disse Joana.

Além disso, a representante da ONU Mulheres apontou que estereótipos como esses também intensificam a violência, já que o homem precisa ser `machão, violento, valente` e a mulher `frágil`. `No momento em que a gente desconstrói isso, questiona esses papéis através da educação com a juventude, a gente cria relações mais respeitosas`, disse.

Da brinquedoteca ao ensino superior

À reportagem do iG , Andrea Ramal ressaltou que tais estereótipos às vezes são expostos aos alunos nas salas de aula de maneiras discretas e logo cedo, como nas ilustrações de cartilhas de alfabetizagem.

Em alguns desses materiais, palavras como `homem` são acompanhadas pela cor azul e por desenhos que remetam ao mundo dos negócios, enquanto que palavras como `mulher` são escritas em rosa e representadas por ilustrações associadas ao lar e a cuidados com a beleza.

`Quando você já traz desenhos como esses, reforçando estereótipos, fica difícil ensinar outra coisa às crianças. Elas crescem imaginando que é o homem quem trabalha fora, enquanto a mulher cuida do lar, das crianças e da sua aparência`, afirma. `É preciso verificar qual o conteúdo que está sendo apresentado aos alunos, mesmo quando novos`, conclui.

Diretora e mantenedora de escolas de ensino fundamental e infantil, no bairro de Perdizes, capital paulista, a pedagoga Márcia Castro Freire concorda com Andrea no que diz respeito ao cuidado com a educação já entre os alunos mais novos.

Responsável há 45 anos pela Escola Gato Xadrez, que comporta alunos do berçário ao ensino infantil, Márcia avalia que não faz sentido esperar os alunos crescerem para ensinar-lhes o valor do respeito entre gêneros.

`Existem formas de falar com cada fase. Mas o assunto deve ser tocado com alunos de todas as idades`, afirma. `Hoje, os alunos do [ensino] fundamental II já têm celular, têm a informação na palma da mão. Não tem o que esconder deles. É melhor conversarmos abertamente`, pontua. `É preciso mostrar que respeito é uma coisa importante. Eu sempre falo para os meus alunos se colocarem no lugar do outro`, diz.

Uma outra dica das educadoras é pensar no assunto na hora de organizar a área da brinquedoteca. `Nós espalhamos os brinquedos igualmente, os chamados `de meninos` e `de meninas`. O menino brinca de boneca, a menina brinca de carrinho, o menino finge que cozinha e a menina vai na mini-marcenaria e aperta parafusos`, diz Márcia. `Eles não têm preconceito na hora de brincar`.

Criança reproduz o que aprende

Esse preconceito, inclusive, foi um dos pontos abordados pelos ativistas da Campanha Latino-Americana pelo Direito à Educação (CLADE) em um estudo sobre a primeira infância, feito em 2014.

De acordo com Fabíola Munhoz, coordenadora de comunicação e mobilização da CLADE, é nessa fase que os estereótipos começam a ser reproduzidos pelas crianças, mas também é com essa idade que os alunos começam a discernir o que é um comportamento correto ou incorreto.

O estudo revela que a discriminação por razão de gênero , assim como a reprodução de preconceitos e estereótipos relacionados, se manifesta já no convívio entre estudantes da educação inicial`, diz ela ao iG .

`Por outro lado, a consulta revela também uma grande abertura de meninas e meninos dessa faixa etária para, orientados por uma educadora ou educador, identificar determinados comportamentos como incorretos. Como, por exemplo, impedir uma colega de jogar futebol `porque é menina``, conclui Fabíola.

`Falta representatividade`

Como visto até aqui, tratar as questões pertinentes à igualdade entre gêneros nas escolas ajuda a ampliar o horizonte das meninas e dos meninos, estimula o respeito entre os alunos, auxilia na evolução da capacidade de discernimento dos mais novos e pode até auxiliar no controle da violência, a longo prazo.

Porém, além da postura dos professores e do cuidado no tipo de atividades propostas pelos docentes, há a questão curricular. `Falta representatividade feminina no currículo escolar. Falta mais biografia feminina, falta falar mais sobre mulheres que fizeram a diferença, na área da história, na da ciência`, diz a diretora Márcia Castro Freire.

`Isso tem a ver com a forma como a história foi contada. Afinal, ela foi contada pelos homens, a partir de uma ótica masculina, esquecendo de todo o papel feminino, de todas as mulheres que construíram essa história junto a eles`, pontua Andrea Ramal.

Para ambas as educadoras, essa lacuna acarreta em mais trabalho para os professores, que precisam compensar o currículo falho com pesquisa extra, levando nomes femininos ao conteúdo exposto na sala de aula, ajudando a amenizar o preconceito de gênero. `É um trabalho de pesquisa, de tentar enriquecer esse material com exemplos do papel da mulher`, reforça Andrea.