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Portal G1, http://g1.globo.com/educacao/guia-de-carreiras/noticia/de-quantos-anos-de-cursinho-voce-precisa-para-passar-no-vestibular-de-medicina.ghtml, 18/07/2017

De quantos anos de cursinho você precisa para passar no vestibular de medicina?

Três vestibulandos que estão há pelo menos três anos tentando uma vaga em medicina contam como se preparam e como se mantêm motivados na disputa pela carreira.

Por Ana Carolina Moreno*, G1

Passar direto do ensino médio para um curso de medicina não é impossível, mas as estatísticas mostram que apenas uma minoria dos candidatos consegue a aprovação no vestibular na primeira tentativa. Na Universidade de São Paulo, eles representam menos de 10% do total de calouros da medicina na Capital. Enquanto na média total de mais de dez mil calouros de 2016 mostrava que 22,9% tinham 17 anos na véspera da segunda fase da Fuvest, entre os aprovados em medicina esse número cai para 9,1%.

Além disso, 53% dos aprovados no curso naquele ano afirmaram que precisaram de pelo menos dois anos de cursinho antes de conquistar a vaga.

A estudante Teresa Leite, de 20 anos, precisou de quatro tentativas "a sério", sem contar a experiência de treineira, para se tornar graduanda em medicina. Atualmente, ela está no primeiro ano do curso da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, depois de ter sido aprovada pela Fuvest 2017. De acordo com ela, "o emocional tem que estar bem forte para lidar com toda essa pressão".

A situação ainda é diferente para três vestibulandos de Alagoas, Rio de Janeiro e São Paulo ouvidos pelo G1. Além de se apegarem à vocação pela carreira, eles dizem que a perspectiva da disputa ferrenha por uma vaga em medicina – especialmente em uma universidade pública – exige dos candidatos planejamento, força de vontade, concentração e apoio da família. Veja a história de cada um deles:

Guia de Carreiras - medicina: vestibulanda tenta uma vaga em medicina há seis anos

Júlia Visconti, 24 anos, Rio de Janeiro

Filha de militar, a estudante carioca cresceu em Brasília e neste ano voltou com a família para a capital fluminense. Atualmente, ela estuda no curso pré-vestibular De A a Z, na Barra da Tijuca. Antes, porém, ela já havia feito cinco anos de cursinho em Brasília, e seu objetivo principal é conseguir uma vaga na Escola Superior de Ciências da Saúde, que é ligada ao governo do Distrito Federal e aderiu ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Ela diz que já foi aprovada em três faculdades particulares, mas sua família não tem como pagar as mensalidades. Segundo Júlia, se for aprovada em alguma universidade pública, ela desiste de sua primeira opção.

Por que decidiu estudar medicina? "Como dizem meus pais, eu decidi com um ano de idade. É a única coisa que eu consigo pensar em fazer. Já pensei em todos os cursos, direito, nutrição. Eu não quero ter consultório, não quero ser dermatologista. Quero trabalhar em hospital de bairro, hospital geral. Tenho dúvidas, mas a gente muda depois. Mas atualmente ou ser oncologista ou alguma coisa que trabalhasse com criança."

Há quantos anos tenta o vestibular de medicina? "É o sexto ano de cursinho. A minha mãe e meus irmãos me apoiam muito. Meu pai foi uma jornada, no início, ele não concordava, tinha briga. Mas depois que ele viu que todos os filhos dos amigos dele fazem particular, ele viu que federal não era uma coisa tão fácil, então hoje em dia ele entende. Minha mãe acha que não devo desistir de jeito nenhum."

Como se prepara para o vestibular? "Acordo cedo, mas não absurdamente cedo, como já fiz. Antigamente dormia cinco horas por noite, estudava quase 20 horas por dia. Hoje acordo às 7h30 ou 8h, estudo até 12h, 13h. Almoço, faço exercício [físico] e venho para o curso. Tenho aula das 15h50 até 20h40. Vou para casa e durmo. No fim de semana estudo também. Como tenho dificuldade em redação, estou fazendo aula com um professor que dizem que é um dos melhores do Rio. Estou seguindo as dicas dele, fazendo uma redação por semana. Daqui a pouco vou começar a fazer duas. Ele nem acha necessário, mas vou fazer."

Como mantém a motivação para estudar? "Eu nem passei ainda, mas acho que vale [a pena se dedicar durante vários anos]. A gente não está fazendo nada errado, está estudando pra passar em uma federal. Se você realmente tem vocação para medicina, como eu, não tem por que desistir. Calma eu não mantenho, não. Isso me atrapalha muito. Já fiz psicóloga, e eu tento manter a calma, mas não sei como. A motivação é a vocação mesmo, tentar não pensar em outras coisas. É o querer. Sei que é o que eu quero para a minha vida, e que diferença faz me formar com 24 ou com 30? É medicina."

Arlyson Souto, 20 anos, Maceió

Este é o terceiro ano em que Arlyson se dedica integralmente a conseguir uma vaga em um curso de graduação em medicina. O estudante do Curso Contato, da capital alagoana, vive com a mãe e com a avó e conta com o apoio da família e da namorada no seu plano. Ele diz que começou o cursinho sabendo que levaria pelo menos três anos para conseguir se preparar de forma adequada para o vestibular.

Por que decidiu estudar medicina? "Eu não tinha nenhum vínculo com esse tipo de coisa, mas minha mãe me indicou, disse que era um bom curso. Tenho irmão farmacêutico, irmã enfermeira, dois tios médicos, tio dentista, que me aconselharam, me disseram os prós e contras. Tinha certa dúvida entre medicina e física, mas alguns acontecimentos me fizeram abraçar esse tipo de causa, então hoje eu abordo isso como única opção. Não vejo nenhuma solução plausível para substituir esse curso."

Há quantos anos tenta o vestibular de medicina? "Três. Quando escolhi eu tinha 17 anos, estava terminando o ensino médio. Só que nessa época, por questão de maturidade, eu não tinha aquela certeza absoluta. Como terminei o terceiro ano um pouco com falta de qualidade, de ensino, de busca, de objetivo, de estrutura, comecei a ter base [do ensino médio] no pré-vestibular. Passei um ano com base, no outro ano tempo integral, na tentativa de acumular teoria. Esse ano tenho uma política de prática, de resolução de questões, para ver se tenho programa completo."

Como se prepara para o vestibular? "Tenho uma estratégia de resoluções de questões, e análise das provas do Enem. Quando fiz a prova no terceiro ano, tirei 640 pontos na média. Em 2015, tirei 690, em 2016, 750. Minha primeira redação teve nota 680, a segunda foi 860 e a terceira foi 980 pontos. Estudo oito horas em casa e seis horas de aula. Faço uma redação no sábado, outra no domingo, acompanho um curso on-line de física no sábado, no domingo resolvo questões desse curso. A família para mim serve como o principal pilar desse processo. Ela tenta o máximo possível não perturbar minha rotina, nada que me atrapalhe. Tenho espaço próprio [de estudos], um quarto sem cama. A gente tirou tudo, só tem uma mesa, duas estantes cheias de livros, o rack de computador."

Como mantém a motivação para estudar? "Eu procuro não pensar nos anos que eu fiz como tempo perdido, como dias jogados fora. Penso como experiência adquirida. É um processo em construção, não é uma coisa que acontece da noite pro dia, de um ano para o outro. Foi um plano montado desde o começo, com um ano de tentativa, e possivelmente três anos estudando. É um processo que se soma a cada dia, precisa de uma meta a longo prazo. Para que isso aconteça, na minha opinião, o apoio da família é fundamental."

Rodrigo Seiji Yasue, 22 anos, São Paulo

Paulistano, Rodrigo diz não ter parentes próximos na área de medicina. Atualmente, ele faz curso pré-vestibular em tempo integral no Etapa, em São Paulo. Ele tem aulas durante pelo menos nova horas todos os dias, mas estuda mais de doze horas por dia, durante seis dias na semana.

Por que decidiu estudar medicina? "Decidi com 15 anos. Pensei em engenharia química, mas a área de medicina acho bem mais completas e interessante. Medicina é uma carreira que me interessou logo que vi. Tanto pela matéria que estuda quanto pelo lado humano. Eu escolhi medicina porque eu percebi que poderia de alguma forma ajudar, curar ou amenizar a dor de outra pessoa. Também escolhi porque engloba as matérias de que eu mais gostava no colégio: química, física e biologia. E com o contato com amigos e parentes de amigos (médicos e estudantes de medicina), fui percebendo que ser médico vai além do tratamento convencional. Médico muitas vezes é uma pessoa com quem simplesmente conversar. E essa vontade de poder fazer algo só aumentou quando vi meu avô falecer na minha frente. Desse momento em diante eu prometi cuidar de cada paciente como se fosse da minha família."

Há quantos anos tenta o vestibular de medicina? "Estou tentando há seis anos. Na verdade, cinco. O primeiro ano não conta. Minha escola tinha um sistema de ensino bom, só que eu não soube aproveitar o que deveria para essa carreira. Eu achava que era mais fácil do que na verdade é. E aí no cursinho eu tive aquele baque: nossa, realmente é difícil passar em medicina."

Como se prepara para o vestibular? "Acordo às 4h30 da manhã, chego no cursinho umas 6h, 6h30, 6h40, por aí. Lá tenho aula até as 16h, mas tem dia que é até as 19h da noite. Fico no cursinho da hora que eu chego até umas 21h. E aí vou para casa, durmo às 23h e acordo às 4h30 de novo, de segunda a sábado. No primeiro ano de cursinho fiquei tentando ver tudo o que eu podia, todas as matérias. Aí, passado o vestibular e a segunda fase, fui focando naquilo que fui errando. “Não passei por quê? Por tal coisa que errei.” Aí nos anos seguintes eu fui arrumando isso. A cada ano que passa fico mais preparado e mais confiante, só que na hora da prova bate aquele nervosismo, e você acaba não rendendo o quanto você esperava no resto do ano."

Como mantém a motivação para estudar? "Você fica imaginando seu nome na lista, e aí isso te dá uma força pra aguentar essa rotina. Essa rotina é bem difícil, você precisa abrir mão de muita coisa, como viajar, sair com amigos... Só restam os domingos e olhe lá. Mas, quando se tem um objetivo, mesmo que não seja fácil, é preciso batalhar por ele. Minha família e meus amigos são a minha base e me apoiam muito. Eu me esforço por mim e por eles, que estão se esforçando e torcendo muito pelo meu sucesso."

*Colaboraram Andressa Gonçalves e Patrícia Albuquerque, no Rio de Janeiro, e Tatiana Regadas, em São Paulo