Clipping
CLIPPING
 

As matérias e artigos a respeito de escolha profissional e profissões ficam disponíveis durante o mês corrente. 

Voltar

Nova pagina 3

REVISTA GESTÃO UNIVERSITÁRIA – 04/07/2017 – BELO HORIZONTE, MG

Os Motivos da Escolha da Profissão: Licenciatura ou Bacharelado Em Educação Física

HUGO NORBERTO KRUG

RESUMO

O objetivo deste estudo foi comparar os motivos que levaram à escolha do curso de Licenciatura e/ou Bacharelado em Educação Física pelos acadêmicos de uma universidade comunitária da região central do Estado do Rio Grande do Sul (Brasil). Caracterizamos a pesquisa como qualitativa descritiva na forma de estudo de caso. O instrumento para coleta de informações foi um questionário. A interpretação das informações coletadas foi realizada por meio da análise de conteúdo. Participaram do estudo 44 acadêmicos do 1º semestre do referido curso. Concluímos que o gosto pelo esporte é o principal motivo que leva às pessoas a escolher a Educação Física como profissão, tanto via Licenciatura quanto via Bacharelado e, esse fato nos leva a inferir que os acadêmicos estudados ao escolherem a sua profissão não possuíam conhecimento sobre a divisão da Educação Física e/ou não conheciam a realidade da profissão desejada.

Palavras-chave: Educação Física. Formação Inicial. Licenciatura. Bacharelado. Escolha Profissional. Motivos.

AS CONSIDERAÇÕES INICIAIS

De acordo com Primi (2000) a escolha do curso superior pode ser vista como uma das etapas mais conflitantes na trajetória escolar, pois assume grande importância no plano individual, já que envolve a definição das futuras experiências profissionais, significando, principalmente, a definição de quem ser, muito mais do que fazer.

Também Saraiva e Ferenc (s.d.) destacam que a escolha do curso é um momento significativo que poderá repercutir na carreira profissional futura, na relação com a pertença social, na autorrealização pessoal e profissional, além de poder constituir-se em um dos elementos explicativos do índice de evasão nas instituições de ensino superior.

Neste sentido, Razeira et al. (2014, p.124) ressaltam que

a escolha do curso universitário e, por conseguinte, da profissão não é uma tarefa fácil e exige cautela, pois os resultados desse processo acompanharão os indivíduos durante toda a vida. Além disso, existem diferentes motivos que interferem nessa escolha, sejam eles intrínsecos (próprio do indivíduo) ou extrínsecos (influenciados por terceiros).

Já Hurtado (apud KRUG; KRUG, 2008) destaca que a escolha profissional pode ser analisada por meio de motivações de natureza consciente (quando o indivíduo sabe por que está agindo de determinada maneira) e inconsciente (quando o indivíduo não sabe por que se comporta de determinada maneira). O autor esclarece que o motivo pode ser definido como sendo qualquer consideração pela qual é realizado e dessa forma, motivo é o que leva uma pessoa a praticar uma ação.

Desta forma, segundo Krug e Krug (2008), o momento da escolha da profissão pelos indivíduos está relacionado com uma motivação gerada por um motivo e que este pode ser consciente ou inconsciente.

Neste contexto, considerando o amplo cenário da escolha profissional focamos o nosso interesse investigativo na Educação Física, mais especificamente em uma determinada universidade comunitária de uma cidade da região central do Estado do Rio Grande do Sul (RS), Brasil, pois acreditamos que estudar as motivações da escolha profissional é preocuparmos com uma formação de qualidade.

Neste direcionamento de foco, constatamos que alguns autores (BECKER; FERREIRA; KRUG, 1999; KRUG; KRUG, 2008; MASCHIO et al., 2009; ANTUNES; KRONBAUER; KRUG, 2012; RAZEIRA et al., 2014; BIGUELINI; ROSSATO, 2016) se preocuparam em desenvolver estudos que mostraram alguns motivos da escolha profissional em Educação Física. Entretanto, pela escassez de investigações sobre esta temática após a divisão da Educação Física em Licenciatura e Bacharelado, consideramos necessário novos estudos, a fim de constatarmos a existência ou não de diferenciações de motivações entre estes cursos.

Assim, embasando-nos nestas premissas anteriormente citadas formulamos a seguinte questão problemática norteadora deste estudo: quais são os motivos que levaram à escolha do curso de Licenciatura e/ou Bacharelado em Educação Física pelos acadêmicos de uma universidade comunitária de uma cidade da região central do Estado do RS (Brasil)?

A partir desta indagação delineamos o objetivo do estudo como sendo: comparar os motivos que levaram à escolha do curso de Licenciatura e/ou Bacharelado em Educação Física pelos acadêmicos de uma universidade comunitária de uma cidade da região central do Estado do RS (Brasil).

A justificativa da realização deste estudo foi embasada em Razeira et al. (2014) que colocam que por meio de pesquisas desta natureza podemos conhecer os interesses e as motivações que levaram os estudantes a optar por uma formação em Educação Física e assim promover uma formação profissional mais qualificada.

OS PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Caracterizamos esta pesquisa como sendo qualitativa descritiva do tipo estudo de caso. Para André (2005, p.47) a pesquisa qualitativa possui como centro das preocupações “[...] o mundo dos sujeitos, os significados que atribuem às suas experiências cotidianas, sua linguagem, suas produções culturais e suas formas de interações sociais”. Já Triviños (1987) destaca que o principal objetivo da pesquisa qualitativa é a descrição que, de acordo com Godoy (1995), descrição esta que procura compreender os fenômenos segundo a perspectiva dos participantes da situação de estudo. Conforme Goode e Hatt (1968, p.17) no estudo de caso “o caso se destaca por se constituir numa unidade dentro de um sistema mais amplo”, pois o interesse incide naquilo que ele tem de único, de particular, mesmo que posteriormente fiquem evidentes certas semelhanças com outros casos ou situações.

O instrumento utilizado para coletar as informações foi um questionário que, segundo Triviños (1987), mesmo sendo de emprego usual no trabalho positivista, também pode ser usado na pesquisa qualitativa.

Para a análise das informações obtidas pelo instrumento de pesquisa utilizamos a análise de conteúdo, que, segundo Cortes (1998, p.29), “[...] tem como pressuposto fundamental categorizar, visando identificar (ou construir) estruturas para a elaboração de modelos”.

Participaram do estudo quarenta e quatro (44) acadêmicos do 1º semestre do curso de Licenciatura e/ou Bacharelado em Educação Física de uma universidade comunitária da região central do Estado do Rio Grande do Sul (Brasil). A escolha dos participantes aconteceu de forma espontânea, em que a disponibilidade dos mesmos foi o fator determinante.

OS RESULTADOS E AS DISCUSSÕES

Identificamos e analisamos os seguintes ‘motivos que levaram à escolha do curso de Licenciatura ou Bacharelado em Educação Física’ pelos acadêmicos de uma universidade comunitária da região central do Estado do RS (Brasil):

1º) O gosto pelo esporte.

Este motivo da escolha pela Educação Física foi manifestado por vinte e sete acadêmicos (Licenciatura=dezeseis: L1; L2; L3; L5; L7; L8; L9; L10; L11; L12; L13; L14; L15; L17; L18 e L19; Bacharelado=onze: B23; B24; B25; B26; B28; B29; B32; B38; B40; B41 e B44). Esse fato está em consonância com os estudos de Becker; Ferreira e Krug (1999), Krug e Krug (2008) e Maschio et al. (2009) realizados com acadêmicos da antiga Licenciatura Plena (Currículo 1990) do Centro de Educação Física e Desportos (CEFD) da Universidade Federal de Santa Maria (CEFD), isto é, antes da divisão da Educação Física em Licenciatura e Bacharelado (BRASIL, 2004)1 que constataram que o gosto pelo esporte foi o principal motivo pelo qual as pessoas escolheram a Educação Física como profissão.

Os depoimentos dos acadêmicos sobre este motivo foram os seguintes: “Por amor esportes” (L1); “Porque amo esportes” (L2); “Sempre me envolvi com esportes e gosto deste ramo de serviço” (L3); “Gosto muito de esportes” (L5); “Por gostar de esportes” (L7); “Gosto de esportes” (L8); “Por gostar de praticar esportes em geral” (L9); “Porque gosto de esportes [...]” (L10); “Porque amo esportes [...]” (L11); “Porque amo esporte e sempre tive facilidade na escola [...]” (L12); “Desde sempre gostei muito de esportes [...]” (L13); “Porque gosto de praticar esportes [...]” (L14); “Por gostar de esportes” (L15); “[...] por ser praticante de esportes de aventura” (L17); “Porque gosto de esporte” (L18); “Porque amo esportes” (L19); “Gosto de esportes e também pratico” (B23); “Gosto de esportes e sempre quis ter uma vida ligada ao esporte” (B24); “Pelo gosto pela prática de esportes e para futuramente trabalhar algo relacionado à esportes” (B25); “Pelo motivo de sempre gostar de esportes [...]” (B26); “[...] por gostar de praticar alguns esportes” (B28); “Porque desde cedo praticava esportes como futebol [...]” (B29); “Porque me identifico com esportes [...]” (B32); “Escolhi Educação Física, pois gosto de praticar esportes” (B38); “Porque por toda minha vida estou envolvido com esportes” (B40); “Escolhi fazer Educação Física, pois sempre gostei de esportes [...]” (B41); e, “Sempre gostei de esportes” (B44).

No direcionamento destes depoimentos dos acadêmicos podemos citar Biguelini e Rossato (2016) que em estudo semelhante a este realizado com acadêmicos de Licenciatura e Bacharelado em Educação Física da Universidade de Cruz Alta (UNICRUZ) constataram que 51% dos pesquisados escolheram o referido curso pelo motivo de gostar de praticar esportes.

Assim, uma das possíveis influências para este gosto pelo esporte pode ser devido a Educação Física Escolar freqüentada pelos estudantes por ocasião da educação básica, pois, segundo Tavares (2009), a Educação Física Escolar está desportivizada, nos moldes do esporte veiculado pelos meios de comunicação e, por vezes, pode determinar a escolha profissional futura.

2º) A identificação com o curso de Educação Física.

Este motivo da escolha pela Educação Física foi declarado por dez acadêmicos (Licenciatura=dois: L4 e L13; Bacharelado=oito: B27; B30; B31; B33; B34; B35; B36 e B43). Esse fato está em consonância com o estudo de Maschio et al. (2009) realizado com acadêmicos da antiga Licenciatura Plena (Currículo 1990) do CEFD/UFSM, isto é, antes da divisão da Educação Física em Licenciatura e Bacharelado (BRASIL, 2004) que constataram que a identificação com o curso de Educação Física foi um dos motivos pelo qual às pessoas escolheram a Educação Física como profissão.

Citamos os depoimentos dos acadêmicos em que esse motivo pode ser identificado: “Porque me identifico melhor com este curso” (acadêmico L4); “Desde sempre [...] me identifiquei com a Educação Física” (acadêmico L13); “É o que eu amo. Não me vejo fazendo outra coisa no futuro [...]” (acadêmico B27); “Porque sempre gostei de Educação Física” (acadêmico B30); “Tive esta opção por ser meu sonho [...]” (acadêmico B31); “É uma área que sempre admirei e que serve tanto para a saúde como para a estética” (acadêmico B33); “É algo que me identifiquei bastante, sempre tive interesse de algo envolvido com a mesma” (acadêmico B34); “Creio que seja o curso que eu tenha mais afinidade [...]” (acadêmico B35); “Porque é uma coisa que gosto [...]” (acadêmico B36); e, “Poder atuar na área de Educação Física é o que eu gosto” (acadêmico B43).

Assim, podemos afirmar que estes depoimentos aproximam-se do dito por Silveira et al. (2008) de que um dos motivos que leva um sujeito a escolher um determinado curso está interligado ao querer trabalhar com determinada área.

3º) O gosto por atividade física.

Este motivo da escolha pela Educação Física foi salientado por seis acadêmicos (Licenciatura=três: L16; L20 e L21; Bacharelado=três: B39; B40 e B42). Esse fato está em consonância com os estudos de Becker; Ferreira e Krug (1999), Krug e Krug (2008) e Maschio et al. (2009) realizados com acadêmicos da antiga Licenciatura Plena (Currículo 1990) do CEFD/UFSM, isto é, antes da divisão da Educação Física em Licenciatura e Bacharelado (BRASIL, 2004) que constataram que o gosto por atividade física foi o principal motivo pelo qual as pessoas escolheram a Educação Física como profissão.

Destacamos os depoimentos dos acadêmicos em que esse motivo pode ser identificado: “Sempre gostei de praticar exercícios físicos” (acadêmico L16); “[...] porque sempre pratiquei atividades físicas em geral” (acadêmico L20); “Por gostar de atividades físicas e praticá-las” (acadêmico L21); “Sempre gostei de atividade física e me interessei” (acadêmico B39); “Porque por toda minha vida estou envolvido com atividades físicas” (acadêmico B40); e, “Porque gosto de atividades físicas [...]” (acadêmico B42).

Podemos considerar que estes depoimentos dos acadêmicos aproximam-se do que Biguelini e Rossato (2016) constataram em estudo semelhante a este realizado com acadêmicos dos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Educação Física da UNICRUZ que 36% dos pesquisados escolheram o referido curso pelo motivo de gostar de atividades físicas.

4º) O desejo de ser professor.

Este motivo da escolha pela Educação Física foi ressaltado por três acadêmicos (Licenciatura=dois: L6 e L10; Bacharelado=um: B31). Esse fato está em consonância com os estudos de Krug e Krug (2008) realizado com acadêmicos da antiga Licenciatura Plena (Currículo 1990) do CEFD/UFSM, isto é, antes da divisão da Educação Física em Licenciatura e Bacharelado (BRASIL, 2004) que constataram que o desejo de ser professor foi um dos motivos pelo qual às pessoas escolheram a Educação Física como profissão.

Foram os seguintes os depoimentos dos acadêmicos em que esse motivo foi identificado: “[...] quero seguir na área de professor” (acadêmico L6); “[...] quero ser professor” (acadêmico L10); e, “[...] quero seguir dando aula e abrir uma escolinha de basquete” (acadêmico B31).

Desta forma, podemos salientar que estes depoimentos dos acadêmicos aproximam-se do afirmado por Valle (2006) de que a escolha da docência resulta, principalmente, de uma decisão tomada em razão da atuação que essa carreira exerce sobre o futuro profissional. Entretanto, Motta e Urt (2007) colocam que o desejo de ser professor costuma ser apresentado como vocação, vinculando-se à ideia de predestinação. Destacam que a “palavra vocação refere-se a um chamado vindo de fora, pois o termo provém do vocábulo latino voccare, que significa chamar. A vocação seria assim entendida quando a pessoa corresponde a esse chamamento, concebido como vinculado a uma natureza humana ou dom divino” (MOTTA; URT, 2007, p.99).

E, neste sentido, Pavan e Lopes (2007, p.29) esclarecem que “ser [professor] não é nem vocação nem destino. Somos [professores] por opção, e isso nos coloca frente a frente com as responsabilidades que esse trabalho nos traz. Portanto, situamo-nos longe de qualquer paradigma que compreenda o processo educacional como algo já dado, como algo determinado [...]”, ressalvando os condicionantes históricos.

5º) Por ser atleta ou ex-atleta.

Este motivo da escolha pela Educação Física foi dito por três acadêmicos (Licenciatura=três: L2; L12 e L17; Bacharelado=zero). Esse fato está em consonância com o dito por Figueiredo (2008) de que a experiência ligada ao esporte é muito considerada no momento da escolha da profissão.

Foram os seguintes os depoimentos dos acadêmicos em que esse motivo foi dentificado: “[...] sou jogador de vôlei” (acadêmico L2); “[...] sou jogadora de futebol” (acadêmico L12); e, “Por ser ex-atleta de futebol [...]” (acadêmico L17).

Na direção destes depoimentos podemos mencionar Santini e Molina Neto (2005) que colocam que a grande maioria dos ingressantes na Educação Física não aspira ser professor. São ex-atletas ou pessoas que tiveram contato com a área esportiva e que, quando confrontadas com a decisão de escolher uma profissão, optaram por uma que já lhes era familiar, a Educação Física, reduzindo, assim, as incertezas.

6º) Para trabalhar em academia e ser personal trainer.

Este motivo da escolha pela Educação Física foi apontado por dois acadêmicos (Licenciatura=zero; Bacharelado=dois: B26 e B27). Esse fato está em consonância com o estudo de Becker; Ferreira e Krug (1999) realizado com acadêmicos da antiga Licenciatura Plena (Currículo 1990) do CEFD/UFSM, isto é antes da divisão da Educação Física em Licenciatura e Bacharelado (BRASIL, 2004), que constataram que o ser professor de academia foi um dos motivos pelo qual os acadêmicos do CEFD/UFSM escolheram a Educação Física como profissão.

Os depoimentos dos acadêmicos sobre esse motivo foram as seguintes: “[...] para atuar como personal trainer” (acadêmico B26); e, “Quero montar uma academia” (acadêmico B37).

Assim, podemos destacar que estes depoimentos dos acadêmicos aproximam-se do afirmado por Martins e Figueiredo (2015, p.18) de que “[a] escolha profissional está associada diretamente ao local de atuação onde seja possível obter uma remuneração mais próxima do satisfatório”. Acrescentam ainda que na escolha profissional é perceptível uma preocupação com a remuneração, a estabilidade no/do emprego e com o preparo para operar a partir dos conhecimentos obtidos na formação inicial.

7º) Pelo incentivo de outros profissionais de Educação Física.

Este motivo da escolha pela Educação Física foi descrito por um único acadêmico (Licenciatura=zero; Bacharelado=um: B36). Esse fato está em consonância com o estudo de Krug e Krug (2008) realizado com acadêmicos da antiga Licenciatura Plena (Currículo 1990) do CEFD/UFSM, isto é, antes da divisão da Educação Física em Licenciatura e Bacharelado (BRASIL, 2004) que constataram que a influência de professores de Educação Física foi um dos motivos pelo qual às pessoas escolheram a Educação Física como profissão.

O depoimento do acadêmico B26 foi o seguinte: “[...] fui incentivado por dois [professores de] Educação Física e acabei gostando da ideia e agora estou aqui”.

No sentido deste depoimento podemos citar Castello (apud KRUG; KRUG, 2008) que diz que o professor de Educação Física influencia as pessoas, tanto pelo que ensina como pelo que faz, pelo bom exemplo que lhes dá. Entretanto, essa influência é, antes de mais nada, de pessoa para pessoa, num interrelacionamento amigo, de compreensão, aceitação e respeio mútuos, levando sempre em conta a liberdade interior e a personalidade do outro.

Também Motta e Urt (2007) colocam que a comunicação entre professor e aluno é carregada de valor simbólico e afetivo, que pode contribuir para a constituição da subjetividade do aluno. Destacam que a relação professor-aluno pode deixar marcas que fomentam a admiração do aluno pelo seu próprio professor e estas marcas influenciam a escolha da profissão. Ainda Tardif (2002) evidencia que muitos professores falam da influência de seus antigos professores na escolha de sua carreira e na maneira de ensinar.

8º) Para ajudar as pessoas com algum problema de saúde.

Este motivo da escolha pela Educação Física foi colocado por um único acadêmico (Licenciatura=zero; Bacharelado=um: B42). Esse fato está em consonância com os estudos de Maschio et al. (2009) realizado com acadêmicos da antiga Licenciatura Plena (Currículo 1990) do CEFD/UFSM, isto é, antes da divisão da Educação Física em Licenciatura e Bacharelado (BRASIL, 2004) que constataram que a relação do curso com outras áreas da saúde foi um dos motivos pelo qual às pessoas escolheram a Educação Física como profissão.

O depoimento do acadêmico B42 foi o seguinte: “Gostaria de ajudar pessoas com problemas de obesidade em particular”.

Este depoimento nos transpareceu que este tipo de motivo projeta a ideia de interesse e motivação com o que quer fazer, e, nesse sentido, citamos Feil (1995) que diz que gostar do que se faz é um fator determinante para a existência de eficiência no trabalho.

9º) Para qualificação do trabalho com capoeira e ser licenciado.

Este motivo da escolha pela Educação Física foi exposto por um único acadêmico (Licenciatura=um: L22; Bacharelado=zero). Esse fato está em consonância com o dito por Krug et al. (2009, p.2) de que “[a] prática de atividade física promove benefícios para a saúde. Diante dessa concepção, o profissional de Educação Física desponta como mediador da prática de atividade física, tendo importante papel em relação à promoção da saúde, educação e prevenção de doenças, contribuindo assim para hábitos de vida mais saudáveis”.

O depoimento do acadêmico L22 foi o seguinte: “Para qualificar meu trabalho com capoeira e ser licenciado”.

No direcionamento deste depoimento nos referimos a Novaes (1999) que afirma que a escolha da profissão deve ser realizada levando-se em consideração as aptidões, a personalidade e as características individuais, assim como o tipo de atividade e a especialidade que envolve em seu cotidiano, sendo que o ideal que o indivíduo esteja sempre trabalhando na área em que gosta.

Assim, estes foram os motivos que levaram à escolha do curso de Licenciatura e/ou Bacharelado em Educação Física pelos acadêmicos estudados.

Ao realizarmos uma análise geral sobre os motivos que levaram à escolha do curso de Licenciatura ou Bacharelado pelos acadêmicos de Educação Física estudados verificamos a existência de um rol de nove diferentes motivos para tal decisão. Essa constatação é confirmada por Figueiredo (2008) quando diz que as situações que levam às pessoas à escolher a educação Física como profissão são bastante diferenciadas.

Ainda observamos que destes nove diferentes motivos que levaram à escolha do curso de Licenciatura ou Bacharelado pelos acadêmicos de Educação Física estudados oito são motivos intrínsecos (1º; 2º; 3º; 4º; 5º; 6º; 8º e 9º e somente um extrínseco (7º). Nesse sentido, lembramos Razeira et al. (2014) que afirmam que existem diversos motivos que interferem na escolha do curso universitário pelas pessoas, sejam eles intrínsecos (próprios do indivíduo) ou extrínsecos (influenciados por terceiros).

Também podemos notar que neste rol de nove diferentes motivos que levaram à escolha do curso de Licenciatura e/ou Bacharelado pelos acadêmicos de Educação Física estudados, quatro motivos são comuns na escolha da Licenciatura e do Bacharelado (1º) O gosto pelo esporte; 2º) A identificação com o curso de Educação Física; 3º) O gosto por atividade física; e, 4º) O desejo de ser professor, totalizando quarenta e seis citações), três motivos são somente relacionados à escolha do Bacharelado (6º) Para trabalhar em academia e ser personal trainer; 7º) Pelo incentivo de outros profissionais de Educação Física; e, 8º) Para ajudar pessoas com algum problema de saúde, totalizando quatro citações) e dois motivos são somente relativos à escolha da Licenciatura (5º) Por ser atleta ou ex-atleta; e, 9º) Para qualificação do trabalho com capoeira e ser licenciado, totalizando quatro citações). Essa constatação nos leva a inferirmos que os acadêmicos estudados ao escolheram a sua profissão não possuíam conhecimento sobre a divisão da Educação Física (BRASIL, 20104) e/ou não conheciam a realidade da profissão desejada. Esses fatos estão em concordância com os encontrados em dois estudos: a) Maschio et al. (2009) que constataram que os acadêmicos do CEFD/UFSM ao ingressarem no curso de Educação Física não tinham consciência/conhecimento sobre a mudança ocorrida na legislação em relação à restrição do campo profissional da Educação Física, isto é, da atuação profissional do licenciado e do bacharel; e, b) Santos e Hallal (2001) que constataram que os acadêmicos que entram nos cursos de Licenciatura em Educação Física conhecem muito pouco sobre a realidade da profissão.

AS CONSIDERAÇÕES CONCLUSIVAS

Pela análise das informações obtidas com os acadêmicos estudados confirmou-se o que destacam Santini e Molina Neto (2005) de que escolher uma profissão não é fácil, pois a tomada de decisão é sempre cercada de dúvidas, emoções e influências de vários aspectos.

Entretanto, o que mais chamou à atenção nos resultados desta investigação, foi o fato de que no rol dos nove diferentes motivos de escolha do curso de Licenciatura e/ou Bacharelado em Educação Física, ficou evidenciado dois blocos de comportamentos dos acadêmicos. Foram eles: 1) A escolha do curso por motivos intrínsecos (maioria); e, 2) A escolha do curso por motivos extrínsecos (minoria).

Outro fato que também chamou à atenção nos resultados desta investigação foi que do rol de nove diferentes motivos, quatro foram comuns na escolha da Licenciatura e/ou Bacharelado, três foram somente relacionados à escolha do Bacharelado e dois foram somente relacionados à escolha da Licenciatura.

Desta forma, concluímos que o gosto pelo esporte é o principal motivo que leva às pessoas a escolher a Educação Física como profissão, tanto via Licenciatura quanto via Bacharelado e, esse fato nos leva a inferir que os acadêmicos estudados ao escolherem a sua profissão não possuíam conhecimento sobre a divisão da Educação Física e/ou não conheciam a realidade da profissão desejada.

REFERÊNCIAS

ANDRÉ, M.E.D.A. Estudo de caso em pesquisa e em avaliação educacional. Brasília: Liberlivro, 2005.

ANTUNES, F.R.; KRONBAUER, C.P.; KRUG, H.N. A escolha do curso de Licenciatura em Educação Física: um diálogo com acadêmicos. In: SEMINÁRIO INTERINSTITUCIONAL DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO, MOSTRA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA, MOSTRA DE EXTENSÃO, XVII., XV., X., 2012, Cruz Alta. Anais, Cruz Alta: UNICRUZ, 2012.

BECKER, A.L.K.; FERREIRA, L.M.; KRUG, H.N. O interesse ou desinteresse dos futuros professores pela atuação na Educação Física Escolar. In: JORNADA ACADÊMICA INTEGRADA, XIV., 1999, Santa Maria. Anais, Santa Maria: CEFD/UFSM, 1999. p.1080.

BIGUELINI, M.F.; ROSSATO, V.M. Expectativas na escolha da profissão: um estudo com acadêmicos do curso de Educação Física. Revista Gestão Universitária, Belo Horizonte, p.1-12, out., 2016. Disponível em: http://www.gestaouniversitaria.com.br/expectativas-na-escolha-da-profissao-um-estudo-com-academicos-do-curso-de-educacao-fisica Acesso em: 02 nov. 2016.

CORTES, S.M.V. Técnicas de coleta e análise qualitativa de dados. In: NEVES, C.E.B.; CORRÊA, M.B. (Orgs.). Pesquisa social empírica: métodos e técnicas. Porto Alegre: Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1998. p.11-47.

BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução n.7, de 31 de março de 2004. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais Para os Cursos de Graduação em Educação Física,

FEIL, I.T.S. A formação docente nas séries iniciais do primeiro grau: repensando a relação entre a construção do conhecimento por parte do professor e o modo como ensina, 1995. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 1995.

FIGUEIREDO, Z.C.C. Experiências sociocorporais e formação docente em Educação Física. Revista Movimento, Porto Alegre, v.14, n.1, p.85-110, jan./abr., 2008.

GODOY, A.S. Pesquisa qualitativa: tipos fundamentais. Revista de Administração de Empresas, São Paulo, v.35, n.3, p.20-29, mai./jun., 1995.

GOODE, W.J.; HATT, P.K. Métodos em pesquisa social. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1968.

KRUG, R. de R. et al. Perfil de profissionais de Educação Física que atuam em academias na região central da cidade de Criciúma/SC. Boletim Brasileiro de Educação Física, Brasília, p.1-9, mar., 2009. Disponível em:http://www.boletimef.org/?canal=12&file=2175. Acesso em: 18 mai. 2017.

KRUG, R. de R.; KRUG, H.N. Os diferentes motivos da escolha da Licenciatura em Educação Física pelos acadêmicos do CEFD/UFSM. Revista Digital Lecturas: Educación Física y Deportes, Buenos Aires, a.13, n.123, p.1-9, ago., 2008. Disponível em: http://www.efdeportes.com/efd123/os-diferentes-motivos-da-escolha-da-licenciatura-em... Acesso em: 06 ago. 2016.

MARTINS, M.L.D.R.; FIGUEIREDO, Z.C.C. Trajetória formativa e profissional em Educação Física: conhecimentos da formação inicial e perspectiva de carreira. Revista Motrivivência, Florianópolis, v.27, n.44, p.11-23, mai., 2015.

MASCHIO, V. et al. As motivações para a escolha do curso de Licenciatura em Educação Física: um diálogo com acadêmicos em formação inicial. Boletim Brasileiro de Educação Física, Brasília, n.73, p.1-9, fev./mar., 2009. Disponível em: http://www.boletimef.org/?canal=12&file=2170. Acesso em: 06 ago. 2016.

MOTTA, M.A.A. da; URT, S. da C. Pensando a docência: formação, trabalho e subjetividade. Revista Série Estudos – Periódico do Mestrado em Educação Física da UCDB, Campo Grande, n.24, p.89-106, jul./dez., 2007.

NOVAES, J.S. Ginástica em academia no Rio de Janeiro: uma pesquisa histórico-descritiva. Rio de Janeiro: Sprint, 1999.

PAVAN, R.; LOPES, M.C.P. Formação docente: reflexões sobre diferentes dimensões. Revista Série Estudos – Periódico do Mestrado em Educação Física do UCDB, Campo Grande, n.24, p.27-33, jul./dez., 2007.

PRIMI, R. et al. Desenvolvimento de um inventário do levantamento das dificuldades da decisão profissional. Revista Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, v.13, n.3, p.451-463, 2000.

RAZEIRA, M.B. et al. Os motivos que levam à escolha do curso de Licenciatura em Educação Física e as pretensas áreas de atuação. Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte, São Paulo, v.13, n.2, p.124-136, jul./dez., 2014.

SANTINI, J.; MOLINA NETO, V. A síndrome do esgotamento profissional em professores de Educação Física: um estudo da rede municipal de ensino de Porto Alegre. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, São Paulo, v.19, n.3, p.209-222, jul./set., 2005.

SANTOS, R.M.; HALLAL, P.R.C. Fatores que levam ao ingresso em Faculdade de Educação Física. In: MARQUES, A.C.; ROMBALDI, A.J. (Orgs.). XX Simpósio Nacional de Educação Física. Coletânea de Textos e Resumos. Pelotas: Editora Universitária/UFPel-ESEF, 2001.

SARAIVA, A.C.L.C.; FEREC, A.V.F. A escolha profissional do curso de Pedagogia: análise das representações sociais de discentes. In: REUNIÃO ANUAL DA ANPEd, 33., 2010, Caxambu. Anais, Caxambu: ANPEd, 2010. (Educação no Brasil: O balanço de uma década). Disponível em: http://www.33reuniao.anped.org.br/33encontro/app/webroot/files/.../GT08-6350-Int.pdf. Acesso em: 30 jun. 2017.

SILVEIRA, J. da S. et al. O desenvolvimento profissional dos professores de Educação Física: a vivência familiar e na educação básica. In: KRUG, H.N.; KRÜGER, L.G.; CRISTINO, A.P. da R. (Orgs.). Os professores de Educação Física em formação. Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria, Centro de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, 2008.

TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

TAVARES, F.J.P. Educação Física e educação ambiental: fundamentação e proposições. Pelotas: Editora Universitária da Universidade Federal de Pelotas, 2009.

TRIVIÑOS, A.N.S. Introdução à pesquisa em ciências sociais: pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas, 1987.

VALLE, I.R. Carreira de magistério: uma escolha deliberada? Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, v.87, n.216, p.178-187, 2006.

NOTA 1 – A Resolução do Conselho Nacional de Educação/Câmara de Educação Superior (BRASIL, 2004) instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Educação Física, em Nível Superior de Graduação Plena, o que obrigou os cursos de Educação Física a se adaptarem as novas normas e dividir o curso em Licenciatura e Bacharelado.

[1] Doutor em Ciências Médicas (UFSC); Professor da Universidade de Cruz Alta (UNICRUZ); rodkrug@bol.com.br .

[2] Doutor em Educação (UNICAMP/UFSM); Doutor em Ciência do Movimento Humano (UFSM); Professor Aposentado da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM); hnkrug@bol.com.br .